DIRETOR DE TELEVISÃO

     Fora da Aeronáutica, no mesmo dia da publicação em boletim do seu julgamento pela junta médica do Hospital, no dia 12 de julho de 1974, Alamar dirigiu-se à TV Guajará, à procura da Dona Conceição Lobato, para saber se o convite que ela havia lhe feito para trabalhar na TV ainda estava de pé. Com muita alegria ela disse que sim! mas cometeu algo que pareceu uma loucura (eram dois doidos, em frente um ao outro):

     - "Tú vais assumir a Direção de Programação desta emissora!".

     - Mas! Dona Conceição! o que é isto? Eu não tenho nenhuma experiência. Tenho apenas 23 anos e não posso entrar logo como diretor. A senhora está brincando, não está?"

     - "Não. Não estou brincando. Eu não erro nas minhas análises. Tú vais ser o meu diretor de programação e sei que vais fazer muito sucesso."

     Era de fato um desafio para um jovem que vinha de uma situação tão traumática, como a que acabara de viver na Aeronáutica.
     Na época na cidade de Belém só haviam duas emissoras de televisão, a TV Guajará, que transmitia a programação da Rede Globo e a TV Marajoara que transmitia a programação da Rede Tupy. O pior era que a TV Guajará perdia no IBOPE para a TV Marajoara, e a competência de reverter o quadro era do diretor de programação. A dona Conceição achava que Alamar era capaz disso.      

     A TV Guajará havia perdido o seu diretor de programação, senhor Carlos Benedito, que havia transferido residência para Brasília, na época. Ele teria a incumbência de substituí-lo.

A tentativa de destruição do Coronel Santarém.

    Alamar assumiu a direção da televisão em julho de 1974, com todo gás. Mas um grande problema estava para surgir logo no início da sua nova experiência. Acontece que em setembro, a Presidente e dona da empresa recebeu um convite para participar das solenidades de aniversário da Base Aérea de Belém...

    Vamos relatar isto aqui. Conforme era de praxe, todos os acontecimentos sociais enviavam, prioritariamente, convites para a imprensa, principalmente para a emissora de televisão que representava a Rede Globo.

    Vejam só que maluquice.

    A Dona Conceição, para agradar Alamar, o chamou à sua sala e o designou para ser o seu  representante naquela solenidade da Aeronáutica. Ele ficou morrendo de medo e disse que não iria, que ele não estava preparado para isto. Ela pensou que se tratava de humildade da parte dele e não aceitou a sua recusa. Determinou que ele fosse.

    Sem saída, Alamar chamou o seu cinegrafista, senhor Milton Pinto de Mendonça e seu auxiliar de Relações Públicas, Senhor Vicente de Paula Souza, para lhe acompanhar. Um com idade para seu seu avô e o outro com idade para ser seu pai.

    Foram até a Base Aérea de Belém, ele vestido com um terno novinho que o Carlos Cavalcante (o meu amigo Cachorro) havia comprado para ele, à prestação, nas lojas Visão. Chegando lá, foi muito bem recebido pelo Coronel Camarinha, Comandante da Base e pelo seu relações públicas, Major Mergulhão, que o conduziram ao palanque, juntamente com as mais altas autoridades do Estado: Governador, Prefeito, o Brigadeiro, o General da 8ª Reigão Militar, o Almirante do 4º Distrito Naval, o Clero e todo mundo. Alamar estava lá, durinho e morrendo de medo.

    Depois dos desfiles militares, foram todos gentilmente convidados para um coquetel no Cassino dos Oficiais.

    Wiskys servidos à vontade e Alamar sempre grudado no seu guaraná Antarctica, o mais gostoso refrigerante do Brasil. Até que, ao conversar com um grupo de outros membros da imprensa, o relações públicas da TV, Vicente de Paula, percebe que um indivíduo está olhando para o seu grupo com uma cara muito feia e demonstrando muita raiva, sem que ele soubesse o  porquê. Quando Alamar virou, percebeu que era o tal Coronel Santarém, o homem que praticou todas as torturas psicológicas contra ele e que chegou até a mandar que policiais da PA o agredissem.

    -"Fique calmo, Vicente. O problema não é com vocês, é comigo. Depois eu relato para vocês quem é esse homem., disse eu.". disse eu.".

    E o Vicente foi ao encontro dele para saber do que se tratava, quando ouviu a ordem:

    - "Mande que esse moleque saia daqui, imediatamente!" se referindo a Alamar.

    E o Vicente, começou a argumentar, em voz alta, que Alamar ali estava na condição da Presidente da TV Guajará, representante da Rede Globo, convidado de honra do Comandante da Base Aérea, e que não iria permitir que ele se retirasse, a não ser que o próprio comandante determinasse isso.

    Quando Alamar percebeu que a coisa começou a esquentar, saiu de fininho em direção ao seu carro, um Volkswagen TL, e se mandou de volta para a televisão, correndo a 100 por hora, na cidade.

    Algum tempo depois, chega o Vicente e o Milton Mendonça, indignados com a atitude do homem e passam direto para a sala da dona Conceição, a Presidente, reunindo-se de luz vermelha acesa.

    Alamar começou a tremer de medo. Achava que iria perder o emprego naquele momento, por causa da fofoca que aquele desequilibrado fez para os dois.

    O infeliz coronel disse para os seus amigos que ele era um moleque muito perigoso, irresponsável, maconheiro (ele nunca fumou nem cigarro comum, em época nenhuma da sua vida), pederasta, que vivia com uma louca, safado, sujo, desonesto e tudo o de ruim que se pode qualificar alguém.

    Mas o Milton e o Vicente o conheciam muito bem, porque ele frequentava as casas dos dois e eles à sua. Sabiam ambos que Alamar nem sequer fumava, que era recem casado com uma moça que tinha problema auditivo, mas que não era louca de jeito nenhum, e que vivia uma vida proba, sem vícios e sem nada que pudesse ser provado, dentro do que o safado havia acusado.

    E ele foi mais longe: Disse que no dia seguinte iria visitar a Presidente da Televisão para dizer, pessoalmente, quem ele era.

    Depois da reunião, a dona Conceição chamou Alamar e, na presença do Milton e do Vicente, mais ainda do Diretor Comercial, Dr. Rafael Marinho, relatou o que o homem havia dito, e disse muito bem que o receberia sim, mas que ele o recebesse primeiro, antes de levá-lo à sala dela. Ela disse que ele estava privilegiado e que aquilo não afetaria a confiança que depositara nele.

    No dia seguinte, na parte da tarde, o José Maria, recepcionista da televisão, anuncia que o Coronel Santarém está na casa, disposto a falar com a Presidente. Dona Conceição interfonou para Alamar e pediu que ele o atendesse.

    Ele teve vontade de atendê-lo, mas preferiu não fazer.

    Foi informado de que o Coronel foi à sala da Dona Conceição, fez todas as fofocas, mas não recebeu o menor apoio.

    Alamar nem viu o infeliz sair. Disse o José Maria (o pretinho da portaria) que o homem saiu bufando de raiva, sem cumprimentar ninguém. A dona Conceição contou tudo depois, disse-lhe que pediu provas a ele a respeito das acusações, o que ele não tinha, e declarou que Alamar estava prestigiado, mais do que nunca.

NA REDE GLOBO

    Haveria, em dezembro de 1975, uma reunião na Rede Globo de Televisão, no Rio de Janeiro, como era habitual, onde participariam todos os diretores de emissoras afiliadas do país, ou seja, os diretores das diversas emissoras que transmitem a programação Globo. A Dona Conceição, mais uma vez surpreendendo, mandou que Alamar fosse representar a TV Guajará, naquela reunião, mesmo sabendo da sua pouca experiência, haja vista que ele estava em um cargo de direção há apenas 5 meses.

No seu gabinete, na TV Guajará. Ao fundo fotos das atrizes Nívea Maria e Sandra Bréa. Sucessos na época.

    Era um desafio! Reunião na Globo!? junto com todas aquelas feras? ao lado do grande ídolo, o Walter Clark e do Boni? Era demais, o jovem diretor não poderia esperar por uma coisa dessa. Mas enfrentou o desafio.    

Ao chegar no Rio de Janeiro, vestido com o únioco terno que o Cavalcante havia lhe dado de presente, foi recebido no Aeroporto do Galeão e conduzido até o hotel em um Landau preto (o carro mais chique do Brasil, na época) para depois ser conduzido à Globo, conhecida "Vênus Platinada".   

    Não era privilégio dele essa recepção no aeroporto daquela forma, todos os demais diretores de afiliadas eram recebidos daquele jeito. Mas não deixou de representar um susto e até um sonho, considerando as dificuldades que enfrentara como sargento da Aeronáutica há tão pouco tempo atrás.

Com a atriz Yoná Magalhães Com os atores Francisco Cuoco, Felipe Carone e Ziembinsky Com a atriz Elizângela

  Na primeira reunião da Globo, o encanto: A sala de reunião parecia mais um cenário hollywodiano. Todas aquelas feras ali reunidas e o garoto de 23 anos no meio, morrendo de vergonha, ou talvez contagiado pela timidez.

    Antes da reunião, os garçons, elegantemente trajados, ofereciam aos participantes o drink composto pelas bebidas mais "nobres" do mundo: Os mais sofisticados vinhos franceses, a Vodka mais famosa da URSS, os mais raros wiskys escoceses etc... E alguém perguntava a todos, quando também perguntou ao deslocado participante:

- "Vais beber o que, ó garotão do Pará? podes escolher à vontade."

- "Eu vou beber uma coca-cola".

Quando todos se viraram em sua direção com um orquestrado:

-"O quêêêêêêê? Coca-cola?"

    E o diretor da TV Globo de Brasília, Guy Cunha, levantando uma garrafa de um tal wisky chamado Royal Salute, cuja embalagem era toda cercada com fios de ouro, perguntou:

- "Você tem idéia de quanto custa uma garrafa desta? Você tem idéia do número de pessoas no Brasil que tem acesso a uma dose desta preciosidade?"

- "Pode custar quanto custar, pode ser a bebida de nobres, de príncipes, reis e rainhas, mas eu não dispenso neste momento a minha coca-cola bem geladinha".

    E a cena virou motivo de gozação. O Walter Clark sugeriu, na brincadeira, claro, que aquele momento poderia ser até gravado como um excelente comercial da coca-cola para a televisão.

    A partir desse momento, Alamar passou a ser um destaque na reunião e também querido por todos. Ele era o mais novo diretor de televisão do Brasil.

    O Walter Clark ficou seu amigo e sempre lhe dedicava a melhor atenção quando em viagens para o Rio de Janeiro. O convidou três vezes para trabalhar na Globo, mas o seu casamento, cedo demais, e a insegurança pessoal representavam uma barreira.

    Falou para o pessoal da Globo a respeito do seu drama em ter que vencer, no IBOPE, a TV Marajoara, com pouca experiência em televisão. Naquele tempo, o diretor de programação tinha uma atuação muito forte, porque a programação de TV afiliada não era tão fácil como hoje, com tudo pelo satélite. Era ele quem tinha que programar tudo, claro que obedecendo aos horários das novelas, dos shows e da programação produzida pela Globo, mas os filmes, eram escohidos, comprados e programados pelo diretor de programação. Aí estava a chave do sucesso. A colocação de dois capítulos de novelas no ar, em dias de ibope na praça, eram estratégias muito fortes.

    E a Globo, por orientação do homem grande, Walter Clark, dedicou total atenção a Alamar, que era um jovem cheio de vontade de aprender, cheio de curiosidades e também cheio de criatividade. Todos os departamentos: jornalismo, produção, promoção, programação, marketing etc... dedicaram-lhe atenção especial. O grande Moacyr Deriquem, o Duarte Franco e o Hélcio Rangel, grandes feras globais, eram só atenção a ele e carinho também.

    Ao assistir as gravações de novelas, recebi o carinho dos principais atores, diretores, câmeras e operadores.

    Alamar sentia-se o máximo, na Vênus Platinada.

Uma grande lição de moral que recebeu

    Por nunca ter bebido alcoólicos e nunca ter fumado, Alamar sempre era muito duro para com aqueles colegas da Aeronáutica que bebiam e fumavam. Ele pressionava muito aqueles que traiam as suas mulheres e até os agredia com palavras, convidando-os à fidelidade, uma vez que ele, quando criança, tomou conhecimento de uma cena muito feia de agressividade de um tio a uma sua tia, em Vitória da Conquista, determinando na sua cabeça que todo homem que bate em mulher é um covarde e colocando-se numa posição extremamente radical contra a infidelidade conjugal. Ele não admitia de maneira alguma um homem ter um caso conjugal fora de casa.

    Havia se casado, recentemente, com a Joaninha, e prometido, não a ela mas a si mesmo, ser fiel para o resto da vida, haja vista que ele era bastante duro com os outros por causa disso.

    Mas caiu na tentação, de forma muito feia, dentro da Rede Globo.

    Nas visitas aos estúdios de gravações de novelas, teve a oportunidade de estar de frente com aquela artista que mais admirava na televisão. Ele era tão louco pela sua beleza, comprava todas as revistas que apresentava a sua foto na capa e em qualquer reportagem. Recebia, inclusive, de graça as revistas da distribuidora da Abril e da Bloch, em Belém, por ser diretor de televisão.

    Muito tímido aproximou-se dela, assim como de vários outros atores. Foi muito bem recebido por todos. Para ele, estar ao lado daquela suntuosidade, era o máximo. Imaginava o seguinte: "Se eu pegar na mão dela, vou ficar um mês sem lavar a mão". Ela é bela demais.

    Ele deveria visitar vários estúdios, mas se fixou naquele.

    De repente, percebeu que ela começou a olhar demais para ele, nos intervalos de gravações e quando a cena não era com ela. Puxava conversa com ele e ele, meio sem jeito, porque jamais poderia supor o que poderia acontecer mais tarde. Bateram um bom papo até que veio uma pergunta:

- "Você está onde, aqui no Rio?"

- "Estou hospedado no hotel OK, na rua Senador Dantas".

- "Vai fazer o que, hoje a noite? Não vai me dizer que vais ficar trancado num hotel, aqui no Rio!"

- "De fato, não tenho nada para fazer. Está previsto eu ficar no hotel mesmo, descansando".

- "Descansando de quê? Essa não. Vamos sair para tomar um chopinho. Você já conhece o Castelinho?"

- "Ainda não. Só o vejo pelas novelas. Deve ser muito bonito, não é?"

- "Você está mesmo a fim de sair, para bater papo?"

- "Claro, claro!"

    Ele não acreditava no que estava acontecendo mas, queira ou não queira, aconteceu. E a coisa terminou daquele jeito, quando a consciência lhe cobrou:

- "Ah. Então tu não andas pregando a fidelidade conjugal? Não andas chamando os seus colegas de estúpidos, quando eles traem as suas mulheres? Como tú ficas, moralmente, agora? Será que vais ter coragem de continuar a agredir os outros?"

    E ele ficou com tanta vergonha de si mesmo, por tudo o que fazia antes com os outros. Mas a coisa não parou por aí. A atriz ficou tão maluca, que chegou a fazer quatro viagens para Belém, atrás dele, hospedando-se sempre no Hotel Sagres, implorando para que ele fosse morar no Rio de Janeiro. Nasceu uma certa paixão. Já havia uma boa vontade de alguns amigos que ele conseguiu fazer na Globo, ainda mais com a força dela, já que era de fato uma estrela. Mas ele não tive coragem. Terminou ficando ela com muita raiva dele e não o procurando mais.

    Alamar faz questão de registrar este fato, não é pelo fato de dizer que namorou com uma pessoa famosa e sim, apenas, para mostrar que não devemos agredir ninguém, muito menos temos o direito de cobrar postura moral de ninguém, principalmente cobrarmos aquilo que não temos condições de vivenciar.

A grande vitória no IBOPE

Ao voltar para Belém, com todo gás e muita bagagem com a Globo, teve a sorte de encontrar um jovem que era um verdadeiro gênio, aos 16 anos, na função de locutor da Rádio Guajará, do mesmo grupo de comunicação, que também trabalhava em alguns horários como locutor da televisão: José Paulo Vieira da Costa.
    Nas conversas com o garoto, percebeu a sua sensibilidade criativa e a sua genialidade. O menino havia atuado em teatro, desde pequeno, e até cantava "Flor Mamãe" nos programas de auditório da Rádio Clube do Pará, aos 8 anos de idade. Aos 16 já era apresentador do programa "Balanço Musical" da Rádio Guajará.

José Paulo Vieira da Costa. Simplesmente um gênio

      Juntamente com Zé Paulo, Alamar começou a aplicar os conhecimentos adquiridos na Globo, escolheu, comprou e programou os melhores filmes da Screen Gems, Paramount, Columbia, Fox e Metro na programação da emissora. Fez chamadas gravadas com exclusividade para a TV Guajará pelos mais famosos atores globais: Cid Moreira, Sérgio Chapellin, Francisco Cuoco, Elizângela, Françoise Fourton, Felippe Carone, Yoná Magalhães, Tarcísio Meira, Ziembinsk etc. e não deu outra coisa. Vitória no IBOPE! Nunca mais perdeu para a TV Marajoara.

 "MACUMBA" NA TELEVISÃO

    Logo que assumiu a direção de programação da televisão, recebeu a visita do Arcebispo Metropolitano de Belém do Pará, Dom Alberto Gaudêncio Ramos, que lhe fazia um apelo para que a TV Guajará criasse uma programação especial todas as manhãs de domingos, apresentando a "santa missa", sob a argumentação de que televisões de vários Estados apresentavam missas nos domingos pela manhã e em Belém não havia. O arcebispo foi atendido por ele, e fazia questão de, ele mesmo, celebrar as missas todos os domingos, a partir das 10 e meia da manhã.

    Dois meses depois, aproximadamente, num sábado a tarde, Alamar percebe que a TV Marajoara estava anunciando a estréia da "Santa Missa" no próximo domingo, com celebração de Dom Alberto Ramos, Dom Aloísio Loscheider e mais o bispo de Manaus, que estava em Belém, não dá para lembrar o nome, às dez horas da manhã, seguida do programa Sílvio Santos, que na época passava na Rede Tupy.

    Revoltado com aquela "traição" surpreendente do arcebispo (Alamar via aquilo como traição), sem que lhe fosse dito nada, procurou saber do José Paulo:

- "E a missa daqui, quem vai celebrar?"

JOSÉ PAULO - "Vem um padre magrinho e baixinho aí, chamado Bruno Sechi. Ele já esteve aqui, mas não disse que ia ter missa na tv Marajoara.".

- "Filhos de uma égua, me traíram! Vão celebrar lá com três bispos, às dez horas da manhã e eu aqui, entrarei depois, às 10 e meia, com um padrezinho fajuta, ainda por cima baixinho e magro. Isto é sacanagem! Quem vai deixar de assistir missa com três bispos para assitir com um padre magro?!!!"

    E teve uma idéia, bem maluca, às seis horas da tarde de um sábado:

- "Zé Paulo, tome a chave do meu carro e saia por aí procurando macumbeiros, por tudo quanto é canto da cidade, que nós vamos fazer um programa de macumba aqui, às dez horas da manhã, em cima da missa deles. Vamos produzir e gravar um programa, no grito e na marra."

ZÉ PAULO - "Mas Régis, tú estás doido? onde é que eu vou achar macumbeiro agora? Não faça uma coisa dessas, isso vai lhe dar problemas. Dom Alberto tem muita força aqui em Belém... Dona Conceição gosta muito dele."

José Paulo, apesar de muito jovem, sempre foi muito equilibrado e sensato. Tinha mais juizo do que o seu diretor.

- "Cale a boca, moleque. Te vira, eu tô mandando. Dê o seu jeito, quero macumbeiros aqui de qualquer jeito e quero começar a gravar isto aqui, no máximo as 10 horas da noite, nem que a gente passe a madrugada inteira editando o programa."

Alamar deu um grito e ele arregalou os seus dois olhos enormes, assustado, e saiu atrás dos macumbeiros.

    Sabendo que o Dr. Lopo de Castro, marido da dona Conceição, gostava muito de uma macumbazinha, Alamar telefonou e mentiu para ele dizendo que o Joaozinho da Goméia, um macumbeiro baiano famoso que existia no Brasil há alguns anos atrás, estava em Belém. Pediu permissão para fazer o programa, e o velho deu.

    Mandou gravar chamadas, na hora, com o João Bosco Maia (grande locutor do Pará), e passou a colocar em todos os intervalos da novela "Fogo Sobre Terra":

" Neste domingo, às dez horas da manhã, 
Sessão de Umbanda,aqui no seu canal 4.
E logo após: a santa missa."

    E o José Paulo, com dois olhos enormes, assustado, pegou a chave do carro e saiu à procura de macumbeiros pela cidade, enquanto o audacioso diretor saia para comprar velas em um supermercado que existia no térreo do mesmo Edifício Manoel Pinto da Silva, onde ficava a televisão e tentava localizar a casa do dono de um dos armarinhos mais conhecidos de Belém, "o Mandarim", para que o mesmo fosse aberto no sábado à noite, para comprar fitas vermelhas, pretas, verdes e tudo o que um cenário de macumba teria direito. E o homem terminou por abrir o armarinho mesmo. Diretor de televisão mandava na cidade, principalmente junto aos lojistas.

    Próximo à meia noite, o Zé Paulo chegou com o carro cheio de macumbeiros, acompanhado por dois outros carros, de amigos dele, também cheios, dispostos a colaborarem com a produção. Os macumbeiros estavam com as caras cheias de cachaça, misturado a fedor de suvaco e mal cheiros de outros órgãos mais baixos, não lavados.

    Ensaiaram o programa e começaram a gravar às duas da manhã, em vídeo tape de duas polegadas (coisa de primeira, na época). Terminaram de gravar às seis e meia da manhã, incumbindo ao Zé Paulo a responsabilidade para levar cada macumbeiro em casa. O programa ficou muito bonito.

    No domingo de manhã, o estúdio já estava todo limpinho, pronto para a "santa missa". O Padre Bruno chegou muito cedo, às 9 e meia, para ajustar, juntamente com as suas auxiliares, o altar e os detalhes da missa que iria celebrar. Ele não sabia que a televisão exibiria antes da missa dele uma sessão de macumba, gravada. Se ele soubesse, certamente recusaria a celebrar a missa, imaginamos.

    "Sem querer", trancaram o Padre no estúdio, para que ele ficasse lá sozinho com as auxiliares preparando o altar e não entrasse na técnica, o que seria fatal, porque ele certamente veria o que estava se passando. Inventaram que a fechadura deu problema e a chave não conseguia abrir.

    Depois o programa gravado foi levado ao ar, normalmente, para em seguida o padre Bruno celebrar a sua missa, sem problema algum, mas sem perceber o que tinha acontecido antes no vídeo da TV Guajará.

    Moral da história: Deram um banho de audiência no IBOPE.

ALAMAR EXCOMUNGADO PELO ARCEBISPO. 
A primeira excomunhão que recebeu em Belém.

    Quando Dom Alberto Gaudêncio Ramos soube da história, escreveu uma matéria enorme no jornal "A Província do Pará" excomungando Alamar e a TV Guajará. Telefonou para a dona Conceição, que  deu a maior bronca no seu jovem diretor, seguida da primeira ameaça de demissão. Alamar diz que nunca sofreu tanto, na iminência de perder um emprego que vinha lhe dando tantas alegrias. Mas não saiu não. A velha Conceição o prestigiou, mais uma vez.

    No dia seguinte à bronca, ele um telex para a Rede Globo e comunicou o acontecido para os diretores, com cópia para o Walter Clark. Recebeu uma resposta enorme, cheia de elogios, parabéns e muito incentivo.

REDE GLOBO - "É isso aí, garoto! Parabéns! televisão é isto mesmo. Você aprendeu cedo demais! vá em frente e conte sempre com o nosso apoio. É de gente assim que a Globo precisa...  Walter Clark."

    Quando ele mostrou o telex para a dona Conceição, ela lhe deu uma bela bronca, porque achou que ele já estava com intimidade demais com a Rede Globo, principalmente pelo fato de ter recebido um telex do próprio Walter Clark, o maior salário do Brasil na época, coisa na casa de um milhão de dólares por mês, mais ou menos.

    Depois, Alamar acabou deixando a televisão para cuidar da sua própria empresa.


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