Lampião. Teria mesmo sido um bandido?

 

Alamar Régis Carvalho

alamar@redevisao.net

 

                Certamente você já deve ter ouvido falar no nome de Virgulino Ferreira da Silva, popularmente conhecido como Lampião, aquele que teve ao seu lado a figura da Maria Bonita. O cinema brasileiro e a televisão já mostraram vários filmes, mini série e comentários acerca da vida dele.

                Todos retratando-o como um bandido, um cangaceiro matador, um sanguinário.

                Desta forma o seu nome foi passado para a história e desta forma a cultura brasileira o absorveu, partindo do princípio que as pessoas recebem tudo o que vem nas enciclopédias, nos jornais, nas revistas, no rádio, na televisão e na boca do povo como sendo a verdade absoluta.

                Poucas pessoas se dispõem e perguntar a si mesmas: Será que foi assim mesmo que aconteceu? Será que o personagem enfocado foi isto mesmo?

                Há muito comodismo nas pessoas comuns, há muita preguiça de raciocínio, há muita falta de disposição para aprofundarmos nas coisas em busca daquilo que chamo “verdade verdadeira”.

                Calma, gente, não estou aqui querendo afirmar que Lampião tenha sido um santo não, apenas quero convidar os meus leitores a me acompanharem em uma linha de raciocínio. Mas é bom você já ir se acostumando a entender que o fato de alguém se disponibilizar a questionar se uma pessoa foi ou não foi bandida não quer dizer necessariamente que queira dizer que ela tenha sido necessariamente santa. Qualquer pessoa inteligente sabe que existe o meio termo, ou seja, o termo comum, aquele que tanto eu como você que me lê estamos inseridos: não somos bandidos mas também não somos santos.

                Vamos questionar um pouco em cima da figura do Lampião e compararmos com uma série de outros casos, inclusive muitos havidos nos dias atuais e até no momento em que estamos vivendo.

                Quando eu era garoto, criado no interior da Bahia, as primeiras versões que me foram passadas acerca da figura do Lampião era de que ele era mesmo um bandido, sanguinário, que sangrava as pessoas, cortava pescoços, matava impiedosamente da forma mais cruel que se pode imaginar. Lembro-me dos filmes que assistia nos velho Cine Conquista e Cine Glória da cidade de Vitória da Conquista: “Lampião o Rei do Cangaço” e vários outros. Todos relatando a sua história como um bandido, conforme entendia e entende a cultura brasileira.

                Mas lembro-me que, na mesma Vitória da Conquista, tive oportunidade de ouvir várias pessoas, idosas, que viveram no seu tempo, algumas até que conviveram com ele, em conversas com adultos afirmarem taxativamente que ele nunca foi bandido, nunca foi uma pessoa má. Recordo-me muito bem e lucidamente da fisionomia daquelas pessoas que falavam durante horas sobre o lendário Lampião, com absoluta isenção de ânimo, sem qualquer teatralização, sem qualquer interesse político e demonstrando absoluta honestidade no que estavam dizendo.

                Acontece que na época, garoto ainda, ingênuo absoluto, sem saber ainda nada sobre as estratégias do mau caratismo... aliás, eu nem sabia nada sobre mau caratismo, não imaginava nem que isto existia... jamais teria condições de questionar determinadas coisas e sempre fazia como faz a maioria das pessoas: ficava com o comum, com o que todo mundo diz. Jamais passava pela minha cabeça a probabilidade de terem razão aqueles que abriam a boca para afirmarem que Lampião não fora um bandido.

                Os tempos se passaram, cheguei à fase adulta, passei a conviver com adultos, fui pessoa de destaque em alguma coisa, ou seja, fiz algo além do que faz a pessoa comum, convivendo com gente de todo canto, de Norte a Sul do País. Tive outra experiência notável e muito marcante que me deu uma experiência extraordinária acerca da formação cultural dos povos: Fui diretor de um grande veículo de comunicação de massa, uma emissora de televisão, sobretudo uma emissora afiliada da Rede Globo, numa época em que a própria Rede Globo era mais poderosa do que é hoje, haja vista que naquele tempo só existiam praticamente dois poderes em termos de televisão em rede no país: Globo e Tupy, sendo a Globo muito mais forte e influente.

                Esta experiência me marcou muito, quando a mim, na condição de diretor, era determinado a badalar, (falando bem e elogiando) pessoas que eram possuidoras de absoluto mau caráter, mas que tinham muito dinheiro, influência e  poder, naquela época em Belém do Pará, onde eu vivia, e também, determinado a usar a televisão para “derrubar”, ou seja, falar mal e denegrir a imagem perante o público de pessoas outras que não eram más e, muito pelo contrário, eram pessoas de bem, honestas e íntegras, mas que não se submetiam a fazer parte de determinados sistemas.

                Eu sofria com aquilo e não tive condições de continuar mais na televisão. Não dava mesmo.

                O grande problema é que o povo se deixa levar por todas as estratégias que são feitas pelos manipuladores da informação, produtores da cultura equivocada.

                Mas voltemos a questão do Lampião.

                Contavam os velhos que ele, lá pela década de trinta, havia se revoltado contra as ações criminosas e covardes dos poderosos da época que exploravam os pobres e indefesos, que abusavam das filhas dos outros, das jovens esposas dos mais pobres, explorando-as sexualmente e ficavam impunes porque compravam polícia, padre, juiz e todo mundo.

                Raciocinemos e perguntemos a nós mesmos se tem ou não tem sentido as alegações dos velhos nordestinos:

                Qualquer pessoa sabe que os poderosos sempre exploraram os mais fracos, em todas as épocas da humanidade. Agora mesmo estamos acompanhando aquela novela da Globo, “Cabocla”, que mostra um “coronel” poderoso que resolveu tomar as terras de uma família pacata e fez um grande mal ao patriarca da família.

                Todo mundo sabe que, mesmo nos dias de hoje, se um filho de rico resolve estuprar uma jovem, dirigir um carro sem carteira e atropelar pessoas, dirigir embriagado e provocar mortes no trânsito, queimar índio e mendigo ou qualquer ato de vandalismo, ele vai fazer isto sem problema algum... ou melhor, vai enfrentar problema por algum tempo, até que a imprensa e a opinião pública esqueçam o ocorrido. A família, que é rica, vai comprar os mais poderosos advogados, aqueles que têm poderosas influências dentro dos Fóruns, que conhecem juízes, desembargadores, promotores, donos dos cartórios, chefe da distribuição, oficiais de “justiça” e tudo que farão justiça à sua moda.

                Estou mentindo? Estou exagerando? É ou não é assim a realidade?

                Vejam bem, isto acontece nos dias de hoje, quando temos uma sociedade bem mais informada, veículos de comunicação bem mais eficientes, variados e abrangentes, câmeras escondidas do Jornal Nacional e do Fantástico de olho em tudo, imaginem na década de trinta.

                Havia uma época em que marido batia a vontade em mulher e não acontecia nada contra ele. Se algum vizinho ou parente se atrevesse a reclamar, ele colocava um revólver na cintura e ninguém falava mais nada. Acontece ainda, mas em pequenas cidades de interior. Nas grandes cidades já existem delegacias da mulher e meios de proteção que de certa forma até funcionam.

                E na década de trinta? Ainda mais no Nordeste, quais os direitos que as pessoas tinham? Existiam as câmeras do Fantástico para flagrar o prefeito da cidade roubando e denunciá-lo para todo o Brasil, deixando sem ação até os demais poderosos da sua região que se dispusessem a defendê-lo? Nada disto existia.

                Os poderosos agiam mesmo conforme os seus interesses, sem qualquer preocupação com conseqüências. Tudo era abafado e ninguém se atrevia a abrir a boca, sob pena de ser morto. Até padres e bispos, adeptos de idéias inquisitoriais, faziam o que queriam, exploravam as pessoas, as mantinham sob ameaças e pressões, retirando delas o que bem entendiam.    

                Sinceramente eu acredito na argumentação de que o Lampião não tenha sido um bandido, como afirmam, embora existam, de fato, pessoas más, que matam por matar, por prazer, por sadismo, por perversidade e por instinto terrorista como muitos bandidos que nós vemos aí cometendo os crimes mais bárbaros e dando entrevistas dizendo que não se arrependem do que fizeram.

                Usemos a nossa imaginação, com inteligência, façamos uma regressão no tempo, e tentemos viver aquela época, visualizando as cenas como ocorriam.

                Determinados poderosos com medo de serem mortos, a qualquer momento, pelo bando do Lampião, que pegava de surpresa e matava mesmo, isto não resta a menor dúvida, começaram a usar as suas influências, sobretudo o seu poderio econômico, junto aos delegados, aos comandantes de polícias, juízes, promotores, governantes, deputados, prefeitos etc. para que eliminassem aquele elemento e seu “bando” que os ameaçava. Nessas alturas já estava envolvida,  também, a imprensa e toda a opinião pública que já estava com a “cabeça feita” pelos interesses maiores.

                Conseguiram! Mataram o homem, sua mulher e todo o seu bando.

                E daí, o que deveria constar nas matérias de jornais? A verdade? Os porquês da existência dos revoltosos?

                Não, nada disso. Teria que constar o que eles queriam que constasse.

                “Lampião foi um bandido! fez tudo aquilo sem motivo nenhum, todo mundo era muito bonzinho com ele, a polícia era boazinha, os coronéis da época eram todos bonzinhos e ele, somente ele, era o bandido”.

                Algum jornalista seria louco de publicar algo que contrariasse a esses interesses?

                Voltemos aos dias de hoje.

                Sabemos que determinados jornais e emissoras de rádio e televisão estão nas mãos de determinados políticos poderosos que, obviamente, pertencem a algum partido político contra ou a favor do governo, seja ele municipal, estadual ou federal.

                Exemplifiquemos alguns casos: No Pará um complexo enorme de comunicação pertence ao Jader Barbalho; no Maranhão, o maior complexo de comunicação pertence à família do José Sarney; no Ceará o maior complexo de comunicação pertence ao Tasso Gereissati; na Bahia ao Antonio Carlos Magalhães, em grande parte de São Paulo ao Orestes Quércia e por aí vai.

                Algum jornalista que trabalha num órgão de imprensa desse, que está ali porque precisa do emprego que é o sustento seu e da sua família, é maluco de publicar alguma coisa que politicamente é contrário aos interesses do patrão?

                Nunca!

                Eu vivi isto, gente! Eu vi o que sofria o velho jornalista Augusto Pinho, responsável pelo jornalismo da antiga TV Guajará de Belém, então afiliada Globo, subordinado a mim, mas que era obrigado a retratar o jornalismo segundo as conveniências dos donos da televisão. Lembro-me que nenhum telejornal ia ao ar sem antes a dona da TV revisar todo o script, chegando a cortar coisas que ele escrevia e remendar outras.

                Hoje a coisa continua exatamente do mesmo jeito.

                Embora sabendo, repito, que existem psicopatas, pessoas doentes e que verdadeiramente estão inseridas no mundo como espíritos bem atrasados, bárbaros, que matam sorrindo, que se aprazem em ver sangue derramando, não acredito que todos os que chegam a perderam a cabeça, a ponto de tirarem a vida do semelhante, sejam necessariamente bandidos.

                Você tem idéia do que existe de gente provocando, sabotando, boicotando e prejudicando abertamente outras pessoas, a ponto de levá-las à loucura?

                Tem idéia da quantidade de mulheres que, na frente de todo mundo, chama os seus maridos de cornos, dizem abertamente para todo mundo ouvir que ele é um incompetente, que ela transa com outro, que ele é um bosta mole e coisas do gênero, em provocações terríveis, a ponto de levá-lo à loucura?

                Tem idéia da quantidade de advogados que, abusando do poder judicial, humilha, extorque, pressiona, angustia e mantém sob o seu cabresto uma pessoa, contra a qual ele tem uma ação, na ameaça de, a qualquer momento, mandar um oficial de “justiça” tomar tudo o que a vítima têm, conseguido a custa de muito suor durante anos e anos?

                Tem idéia do que faz alguém que tem uma fotografia ou um vídeo comprometedor de outra pessoa, contra essa, extorquindo, pressionando, humilhando, explorando e torturando de todas as formas, sob a ameaça covarde de mostrar aquelas fotos e aqueles vídeos a público?

                Tem idéia da pressão que faz um determinado empresário, em cima de uma jovem adolescente a fim de possuí-la sexualmente, sob pena de demitir o seu pai do emprego que é o único sustento para a família?

                Enfim, gente, os exemplos são inúmeros! Todos nós vimos isto todos os dias, na vida real e na televisão.

                Nem todo mundo tem equilíbrio, resistência e preparo espiritual suficiente para agüentar tanta máfia, tanta pressão, tanto boicote, tanta sabotagem, tanta crueldade e tanta sujeira praticada por pessoas covardes e canalhas que explicitamente estão dispostas a lhe destruir.

                Já que estamos abordando uma questão para reflexão de pessoas que raciocinam, façamos uma pergunta a nós mesmos:

                Será que aquele terrorismo maluco promovido pelo Bin Laden e seus simpatizantes não tem motivo nenhum? Será que ele resolveu ter todo aquele ódio sem mais nem menos?

                Foi, sem dúvida alguma, um absurdo e uma atitude extremamente covarde que vitimou milhares de pessoas inocentes, entre as que estavam nos aviões e as que estavam nos prédios, no episódio de 11 de setembro de 2001 nos Estados Unidos, que me fez inclusive derramar lágrimas quando vi, pela televisão, aquelas torres desabando, já que costumeiramente eu sempre estava no alto de uma delas, toda vez que ia a Nova York; mas será que não teve, ou ainda não tem, gente muito desequilibrada espiritualmente provocando, humilhando e fazendo de tudo para que os promotores daquele lamentável ato terrorista fizessem aquilo?

                Será que os noticiários que chegam até nós retratam as “verdades verdadeiras”?

                Talvez você que me lê tenha conhecimento dessa verdade verdadeira, mas eu não sei qual é. Continuo aqui morrendo de pena das vítimas, lamentando tudo o que aconteceu, pedindo a Deus que não volte a acontecer mais qualquer coisa parecida com aquilo, mas não vejo o menor esforço, em termos de medidas sensatas e racionais, para evitar que algo semelhante volte a acontecer, talvez até em proporções maiores. Muito pelo contrário, continuo a ver o Estados Unidos produzindo mais e mais filmes mostrando destruições de Nova York e do seu povo. Parece que eles adoram isto.

                A grande verdade é que todos nós devemos, em respeito à nossa própria inteligência, não nos deixar levar pelos que tentam impor “verdades” unilaterais para nós e, muito pelo contrário, exercitarmos os nossos miolos no sentido de questionarmos a nós mesmos em cima do “O que há por trás disso?”.

                Voltando ao caso do Lampião, reafirmo aqui: Eu não o qualifico como santo, em absoluto, porque ninguém é santo, mas também não me submeto ao ridículo de, porque todo mundo diz, eu também deva sair por aí afirmando que ele fora bandido. Vejo muita coerência e sensatez nos que me disseram, quando criança, que ele não fora o que disseram para a história do Brasil. Matou gente, sim; esfaqueou, sim; degolou, sim; tirou a vida de semelhantes, mas só Deus e muitos que conviveram com ele sabem das razões que o levaram àquilo.

                Cuidado com a máfias e os interesses de muitos canalhas que proliferam por este mundo.

                Sugiro que leia, também, outras matérias que escrevi, aqui neste mesmo site, acerca do mau caratismo.