Planos de saúde:
Outra pouca vergonha, no Brasil

 Alamar Régis Carvalho
alamar@redevisao.net

             Não restam dúvidas de que todas as atividades precisam se manter e, para isto, não se constitui pecado nenhum o exercício comercial e o trato financeiro que são dados a elas, que precisam remunerar os profissionais que trabalham, bancarem os custos que naturalmente advém dos serviços realizados e até obterem lucros.

            Todavia quando uma atividade, sobretudo quando fundamental para a vida das pessoas, é realizada com objetivos do “ganhar dinheiro” e até “ganhar MUITO dinheiro”, aí a coisa se complica e alguma coisa deve ser feita. Alguém tem que gritar!!!

            Um colégio ou faculdade que tem à sua frente uma direção que ama a arte de educar, que tem prazer em educar e que vive pela educação é muito mais recomendável que aquele dirigido por elementos que só visam as mensalidades dos alunos, o lucro, as estratégias diversificadas de tirar dinheiro dos alunos, fazendo jogadas com editoras, fábricas de uniformes e até as cantinas.      O mesmo acontece com muitos planos de saúde, atividades essas que deveriam ser dirigidas por médicos, do segmento não mercenário, daqueles que amam a Medicina, que vivem pela da arte de curar e que se sintam bem nas suas profissões.

            Verificamos procedimentos absurdos nos planos de saúde, em nosso País, onde o objetivo é arrecadar o máximo e gastar o mínimo possível.

            O valor da consulta que pagam ao médico, o principal fator neste processo, chega a ser ridículo. Por este motivo o profissional, para sobreviver, tem que dar um atendimento precário ao paciente, sem dedicar à consulta o tempo necessário para um atendimento pelo menos razoável do quadro apresentado.

            O pior de tudo é que verificamos, também, alguma coisa que constitui-se num verdadeiro crime, que deveria ser observado pelo Ministério da Saúde:

            Os médicos não estão podendo pedir exames e radiografias conforme a necessidade do quadro e sim conforme o que determina o plano de saúde ao qual o paciente é conveniado.

            Se contrariar esta ordem, ele é chamado a atenção e até ameaçado de “perder” o convênio.

            Não parece uma brincadeira?

            Por exemplo:

            Se o quadro de um paciente necessita que ele peça um exame de colesterol e as frações (HDL, LDL), ele fica obrigado a pedir apenas o colestorol total, sem as frações, para o exame ficar o mais barato possível para o plano. Está certo isto?

            Tem plano de saúde que limita o número de exames pedidos pelos seus médicos conveniados em apenas três!

            Caso o profissional queira ver o Hemograma, Colesterol, Triglicerídios, Glicose, Uréia, Creatinina, TGP, TGO... não pode. Tem que optar por apenas três!

            E o paciente não pode falar nada.

            Que nível e que qualidade de tratamento poderá dar um médico a um seu paciente se ele tem que limitar-se às conveniências dos planos de saúde?

            Trata-se de uma máfia sem vergonha, semelhante a máfia dos seguros, que querem apenas que os pacientes paguem, paguem, paguem e paguem mas não usem os serviços nunca.           

            No caso dos planos de saúde, tem muitas pessoas que ficam pagando durante anos, sem enfrentarem problemas de saúde que necessitem de consultas e exames, apenas dando lucros a eles. No momento em que o inesperado acontece, ficam limitadas a estes absurdos.

            Ainda tem outro fator a considerar:

            Quando você precisa de uma consulta a um especialista qualquer, obviamente você deve estar sentindo alguma coisa, algo de anormal está acontecendo contigo, e torna-se necessário levar o problema ao conhecimento médico imediatamente.

            Só que o segurado, da grande maior parte dos planos de saúde, nunca têm médicos disponíveis para atender, e você só poderá receber atendimento daqui há 30, 45 ou 60 dias!

            Pode, uma coisa desta?

            E se for um quadro que pode evoluir para uma infecção ou conseqüência mais grave no período de uma semana, caso não seja tratado logo?

            Aí argumentam que para tratamentos de urgência tem disponibilidade de atendimento, em nível de pronto socorro, imediatamente.

            Será, então, que temos que esperar que o problema se agrave, a ponto do paciente desmaiar, gritar de dores, começar a vomitar e levar a família ao desespero para poder ser atendido logo, nesse tal sistema de pronto socorro?

            Tem outro detalhe: Nos prontos socorros nunca os pacientes serão atendidos por especialistas e sim por médicos de clínica geral que estão de plantão, geralmente profissionais recém formados, ainda sem experiência, porque estão ali, pegando qualquer coisa, a fim dos primeiros exercícios práticos da sua nova profissão.

            Do pronto socorro encaminharão, sim, ao especialista. Mas quando esse poderá atender?

            Ao chegar ao especialista esse, por sua vez, fará um pedido de exames, quando o paciente enfrentará vários problemas:

            1) O médico não vai poder pedir todos os exames que acha necessário, porque têm que se limitar ao que já explicamos aqui. Se precisar de dez exames, só poderá pedir três.

            2) Vai ter que telefonar para um determinado número para marcar a data para fazer os exames. Mais uma semana, quinze dias ou um mês de espera.

            3) Depois de colhidos os materiais, sangue, urina, fezes, radiografia, eletro etc... vai ter que esperar mais alguns dias pelos resultados. Mais uma semana, quinze dias ou um mês.

            Gente! Pelo amor de Deus, como é que fica a situação do paciente diante de uma realidade desta?

            Será que no Brasil a gente vive apenas para pagar, pagar, pagar e pagar sem direito algum?

            Já não basta a pouca vergonha da tributação excessiva, quando pagamos impostos sobre impostos em nível de país de primeiro mundo e recebemos serviços públicos em nível de países os mais atrasados possíveis?

            Já não basta a gente pagar impostos para custear a educação, mas sermos obrigados a pagar colégios e faculdades particulares para que os nossos filhos obtenham educação?

            Já não basta pagarmos impostos para manter as estradas, mas sermos obrigados a pagar pedágios?

            Já não bastar pagarmos impostos para manter a segurança pública, mas sermos obrigados a pagar segurança particular?

            Pagamos impostos para custear a educação, mas temos que pagar escolas particulares?

            Que me desculpem aqueles que vivem a enviar mensagens pela internet, claramente com objetivos políticos partidários, apenas pedindo o impeachment do Lula, como se o seu simples afastamento resolvesse todos os problemas da Nação.

            Seremos muito idiotas se ficamos aqui iludidos, esperando que prisões dos Delúbios, Marcus Valérios e outros resolverão todos os problemas da Nação e transformarão este país num paraíso.

            Os abusos e absurdos do Brasil são crônicos e não são coisas de agora. Só serão resolvidos se o povo tomar consciência da necessidade de uma ação sua, imediatamente!

            Enquanto o povo brasileiro continuar aí acomodado, esperando por milagres do céu, sem tomar providência nenhuma, com essa idiotia partidária, vamos continuar sofrendo todas essas amarguras, perdendo os nossos entes queridos por causa dessa pouca vergonha que existe no País chamada plano de saúde.