São Paulo, 01 de junho de 2004.

 

De: Alamar Régis Carvalho

Para: Rede Globo de Televisão

          Revista Veja

 

A REALIDADE DAS EMPRESA BRASILEIRAS

Um fato acontecido em São Paulo

 

                Senhores Jornalistas:

 

                Venho relatar uma experiência, extremamente desagradável, ocorrida no centro da capital de São Paulo, na última sexta-feira, dia 28 de maio de 2004, por volta das 11:00 horas da manhã, a título de colaboração, esperando que esta informação sirva como instrumento para que esse conceituado veículo de comunicação possa se aprofundar no problema, com os recursos tecnológicos que dispõe, realizando matéria que pode contribuir em muito para uma coerente conscientização nacional a respeito de uma das principais causas do desemprego, que tantos prejuízos causam à Nação.

                Andando em frente ao antigo Mappin, bem em frente ao Teatro Municipal de São Paulo, em direção à Rua Barão de Itapetininga, deparei-me com inúmeras pessoas, propagandistas, abordando-me, com a seguinte proposta:

 

-         “Advogado trabalhista! Advogado trabalhista! Vamos lá gente!”.

-         “Está precisando de advogado trabalhista, meu senhor?”.

 

Estranhou-me a quantidade de ofertas para esse tipo de produto, que veio ao encontro de uma busca por mais informações que faço, em pequisa sobre uma das principais, ou melhor, a principal causa, ao meu ver, do elevador índice de desemprego em nosso País.

Aquiesci-me em aceitar a proposta de um dos propagandistas, que me levou, prontamente, ao segundo andar de um dos velhos prédios das proximidades, onde se localizava o escritório de advocacia para o qual o serviço era prestado.

Chegando lá, deparei-me logo com três “adevogados” (coloquei a palavra “adevogado” propositalmente, para que seja dada ênfase ao nível de advogados que estão fazendo isto, no Brasil), trajados com aqueles ternos desbotados, em ambiente horroroso, móveis em péssimas condições, alguns livros expostos em uma estante, provavelmente adquiridos em algum sebo da cidade.

Tudo muito longe da qualidade dos escritórios dos autênticos e competentes advogados, aqueles que se pautam pela seriedade e a ética tão recomendada pela respeitável OAB.

Fui recebido com “tapete vermelho”. Vi-me na condição de um cordeiro abocanhado por um faminto lobo caçador.

Simulei-me como um “trabalhador” brasileiro, recem demitido por alguma empresa e inventei alto salário, bom cargo funcional e tudo aquilo que existe numa relação de emprego.

Disse que a empresa não havia me indenizado, o quanto deveria, e que não havia pago as minhas férias proporcionais.

Pediu-me a carteira de identidade e CPF, além do nome e endereço da empresa para a qual eu trabalhara.

Por não querer identificar-me, aleguei que havia esquecido o documento no porta luvas do carro, que ficara num estacionamento ali próximo, e “chutei” um nome qualquer, além de ter inventado também um nome e endereço de empresa. Disse que iria no estacionamento, buscar o documento, depois que obter as orientações dele sobre o que eu deveria fazer.

 

-          “Pois não, meu senhor, pois não! Vamos preparar a reclamação agora mesmo! Deixe comigo, que o senhor vai receber bonitinho tudo o que tem direito. Vamos adiantando aqui, para darmos entrada logo. Depois o senhor trás a sua identidade.”.

 

Sentou-se no computador e começou a preparar, no Word, a peça inicial dos autos que seriam dado entrada naquele mesmo momento na junta mais próxima.

Enquanto isto, os outros dois advogados e mais duas moças, dividiam uma pizza e uma garrafa de coca-cola de dois litros na outra mesa.

Fiquei esperando, até que o causídico concluiu a sua digitação e imprimiu em três vias na impressora jato de tinta, dando-me para ler e assinar.

Na reclamação continha:

 

1)       Exigências de horas extras trabalhadas, coisa que eu não disse para ele que fiz.

2)       Exigências de adicionais noturnos, que também não citei.

3)       Pagamentos de férias em dobro, que também não citei.

E mais uma série de outras parcelas que, francamente, não tenho a menor idéia do que se referiam.

Vejam o diálogo que se sucedeu:

 

-          Mas, doutor. Eu não falei em horas extras e nem em adicionais noturnos. Além disso, tem um monte de coisas aqui que eu não sei nem o que é.

 

-          “Não se preocupe, meu amigo. Eu sei o que estou fazendo, afinal de contas sou seu advogado e você tem que confiar na experiência do advogado. Essas coisas são assim mesmo.”

 

-          Mas doutor, eu não quero sacanear a empresa, porque pode ser que eu precise dela e até volte a trabalhar lá. A minha relação é boa com ela. Foi apenas um diretor novo que apareceu lá agora, que parece que não foi com a minha cara, e me demitiu.

 

-          “Não vá me dizer que o senhor vai querer ser o salvador da Pátria. Meu amigo, toda empresa é suja, é safada, aproveita-se do pobre do trabalhador. Tenho certeza que o senhor foi explorado lá. Vamos f... com essa empresa”.

 

-          Mas eu não falei em horas extras nem em adicional noturno.

 

Até que ele pediu-me calma, para explicar como a coisa funciona:

 

-          “O negócio é o seguinte: Quando o advogado experiente formula uma queixa trabalhalista, ele parte logo do princípio que o juiz vai propor logo um acordo, na primeira audiência. É assim que funciona. Esse acordo é baseado no valor inicial que está sendo reclamado. Se a gente colocar um valor muito baixo, o acordo vai ser... vamos dizer assim... na metade desse baixo, entendeu? Então a gente colocar essas coisas todas aí, pro forma, mesmo não tendo direito, para que o juíz veja um valor alto e conduza o acordo com base naquele valor. A empresa, que receberá uma reclamação, vamos dizer assim, de 30 mil reais, vai se contentar e achar que levou vantagem em pagar 15 mil, que é o que nós queremos, tá entendendo?”

 

E continuou com as suas explicações, porém deixando explícito que já começara a nutrir ódio por aquela empresa, a qual ele nunca havia ouvido falar antes.

Repetia, diversas vezes, a “célebre” frase:

- “Nós vamos f... com essa empresa”.

                Manifestei-me empolgado com aquela sua assessoria, levantei-me e disse que iria ao estacionamento buscar a minha identidade no carro, para assinar o documento, quando ele me disse para eu voltar logo, porque pretendia dar entrada imediatamente no processo.

 

CONCLUSÃO

 

                Com esta matéria não quero me colocar aqui, perante a nossa imprensa, como defensor ardoroso da classe empresarial não, porque sei muito bem que de fato existem muitos empresários pilantras, safados, exploradores, desonestos e sem vergonha que, de fato, exploram empregados, existindo, inclusive, alguns que praticam regime de escravidão, como ocorre no interior do Pará, fato demonstrado pela televisão.

                Todavia é preciso que todos sejamos conscientes de que a maioria dos empresários não faz isso!

                A maioria dos empresários brasileiros, sobretudo os pequenos, é vítima do rigor dos fiscais que, ou são arrogantes demais, verdadeiros vampiros que não medem esforços em aplicar a indústria da multa, ou são corruptos safados que lhe subtraem o máximo que podem, quanto maior for a dificuldade de sobrevivência do seu negócio.

                O objetivo dos fiscais é retirar dinheiro, de qualquer maneira, e sempre tiram: seja em forma de multa e penalizações ou em forma de pressão e corrupção. Não há saída para o pequeno empresário.

                O pequeno empresário brasileiro não consegue sobreviver, tamanha as tributações, os encargos sociais, as taxas e as obrigações. Só tem obrigações, direito nenhum!                

Incentivo do BNDES isto não existe para nenhum pequeno empresário brasileiro, a não ser que ele envolva pelo meio algum deputado ou senador, para levar dez, vinte ou trinta por cento. Dinheiro do BNDES só para as multi nacionais e  poderosas empresas de um modo geral. E ainda diz que é para desenvolvimente da Nação. Só mesmo os trouxas para acreditarem numa coisa dessa.

Incentivo de banco estatal, tipo Banco do Brasil e Caixa Econômica, também não existe, porque os bancos, inclusive esses citados, só servem para extorquir e fazer altas jogadas.

E ainda tem que conviver com essa indústria sem vergonha que fazem, utilizando-se da CLT tão mal conduzida pela demagoga “justiça” do Trabalho?

Sugiro que façam uma averiguação no centro de São Paulo e, com certeza, nos centros de outras grandes cidades deste País.

Não me peçam para denunciar quem é este advogado que fui visitar, porque eu não estou disposto a submeter-me a ser um Cristo, exposto as reações violentas dessa máfia, num país que não tem a menor condição de proteger ninguém. Tenho família para criar. Afinal de contas, fazer o que eu fiz é a coisa mais fácil do mundo, que qualquer um pode fazer, no centrão de São Paulo, principalmente os repórteres da Globo, com as suas câmeras escondidas, que tem conseguido apurar tanta safadeza no Brasil. Não existe somente estes três “adevogados” não, existem inúmeros.

Mostrem à Nação que a questão do desemprego não é problema para ser resolvido pela demagogia político partidária, pelas ridículas promessas de palanque, muito menos pelos idiotas dos candidatos supostos oposicionistas, que se fazem de salvadores da Pátria, sempre acusando os situacionistas, como se eles pudessem praticar milagres, caso eleitos fossem.

Mostrem que os senhores Juízes, de todas as instâncias, devem procurar exercitar um pouco mais o seu bom senso e terem, pelo menos, um pouco de inteligência, a fim de considerarem essa cachorrada praticada por muitos espertalhões. Seria bom que muitos magistrados decessem da sua arrogância e do abuso da autoridade, que por qualquer coisinha ameaçam colocar um cidadão na cadeia, e refletissem um pouco em cima desta triste realidade.

Protejamos, sim, os verdadeiros trabalhadores brasileiros, os competentes, os honestos, os produtivos, os assíduos, os pontuais e os decentes, e não os inúmeros pilantras, ladrões de empresas, preguiçosos, safados e canalhas que abusam da existência da demagoga, ultrapassada, desinteligente, omissa, improdutiva e ridícula dessa  CLT, que não tem a menor competência para separar o joio do trigo.

Este país só terá um futuro feliz, a partir do momento em que os seus cidadãos começarem a utilizar o BOM SENSO, A COERÊNCIA e sobretudo A INTELIGÊNCIA.

 

                Atenciosamente.

 

 

                                                               Alamar Régis Carvalho

                                                               Analista de Sistemas – Pesquisador

                                                               alamar@redevisao.net

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