Sobre o referendo do desarmamento

Atendendo a solicitação dos amigos

 

Alamar Régis Carvalho

alamar@redevisao.net

 

         Semanalmente costumo mandar E-mails para alguns milhares de pessoas que fazem parte da minha agenda, pessoas essas que fazem parte de um universo de amigos, haja vista que a agenda não foi formada no estilo “spam” e sim acrescentando endereços à medida que pessoas manifestam o interesse em receber os meus artigos, tendo também casos de alguns amigos que pedem para que eu acrescente endereços de amigos seus para, também, receberem as mensagens.

         Diante deste grande questionamento nacional que está havendo, acerca do referendo sobre o desarmamento da população, esses amigos têm solicitado que eu manifeste também a minha opinião a respeito do assunto, o que tentarei fazer aqui.

         Mais uma vez eu vou ter que escrever muito, já que gosto de explicar o mais detalhadamente possível as minhas idéias, para que tudo fique bem entendido.

         Não gosto de manifestar sobre coisas de tamanha importância apenas levado pela emoção; não costumo escrever com objetivos de ser agradável a todas as pessoas, primeiro porque não sou político, o que implica em ter que ser demagogo; segundo porque não me acho no direito de subestimar a inteligência das pessoas, muito menos de fazer os meus amigos de idiotas; terceiro porque não posso enganar a mim mesmo, tirando conclusões superficiais sobre os problemas da vida.

         Continuo a citar a minha velha frase: Enganar os outros é desonestidade, mas enganar a nós mesmos já passa a ser burrice.

         O meu estilo é absolutamente independente, sem temer reações de leitores radicais, sejam eles de direita, de esquerda, de centro, de interesses religiosos, filosóficos e qualquer que seja.  

         Precisamos utilizar, mesmo, a inteligência, o bom senso, a coerência e a razão neste  momento em que somos chamados a decidir sobre algo tão sério.

         Não é a propaganda da televisão nem o volume gigantesco de E-mails que recebo diariamente que vai determinar se eu votarei SIM ou NÃO no dia 23 de outubro, embora devam ser respeitadas as opiniões e argumentações dos outros para formar a minha opinião; quem vai direcionar o meu voto é a minha própria capacidade de decidir. (não sou marionete, não sou fantoche).

         Vamos a algumas argumentações:

 

O comportamental das pessoas.

        

         Se eu estiver exagerando, no que vou dizer aqui, por favor, pode me xingar a vontade que aceitarei.

         Conheço pessoas que vivem a dizer que não suportam violência, repudiam a violência, protestam contra a violência, se dizem indignadas com a incapacidade da polícia e das autoridades em conterem a violência, vivem até rezando pedindo a Deus, aos Espíritos e aos seus Santos, para protegerem a si e aos seus familiares da violência, todavia, adoram ver violência.

         Você sabe qual é o tipo de filme que mais dá audiência na televisão e no cinema?

         Os filmes violentos! Quanto mais violento, cruel e sanguinário, maior é a sua audiência!

         As novelas da televisão, segundo o ibope e todos os outros institutos de pesquisas que as avaliam, têm audiências variáveis nos seus capítulos. Um dia dá 41 pontos, outro dia 42, volta para 40, sobre para 44...

         Se você não sabia, fique sabendo agora que os capítulos que mais dão audiência são aqueles em que há assassinato de alguém. É ter desgraça na novela, a audiência sobe.

         Basta que os fofoqueiros dos programas de tv e das revistas especializadas em televisão anunciem, com antecedência, que o capítulo da próxima quinta-feira tal vai mostrar o assassinato do personagem “xyz”, para a sua audiência aumentar assustadoramente. Se a novela das nove, da Globo, por exemplo, aponta uma média de audiência de 46 pontos no ibope, esse número ultrapassa aos 56 e as vezes até aos 60 pontos no dia do assassinato.

         Até pessoas que não acompanham novelas, que dizem não gostar de novelas, costumam parar diante da TV, nesse dia, para assistirem à tragédia. Impressionante, mas é isto mesmo.

         Você sabe qual o gênero de filmes que mais são alugados em fitas VHS e DVDs nas locadoras?

         É preciso dizer?

         Disparadamente os filmes de violência, que superam até mesmo os filmes sobre sexo, são os mais procurados pelas pessoas.

         Você sabe por que em cada dez notícias mostradas nos telejornais da televisão, oito são notícias de desgraças? Guerras, desastres, acidentes de carros (preferencialmente com mortes), seqüestros, assassinatos, homens bombas, terrorismo, etc...   

Estou exagerando?

         Por que as emissoras da televisão mostram tanta desgraça? Por que os seus jornalistas são sádicos, masoquistas, perturbados, doentes mentais e desajustados espiritualmente?

         Não, nada disto. Elas mostram porque o povo adora ver isto. 

         Os exemplos são muitos, as comprovações e evidências de que as pessoas no fundo adoram a violência são enormes. Eu poderia escrever aqui umas cinco páginas só dando exemplos desta triste realidade.

         Entre os diversos E-mails que recebo diariamente, defendendo as duas posições deste referendo, encontro alguns de pessoas as quais eu conheço, que estão inseridas nesse universo de  adorarem a violência da TV, do cinema e todas essas formas que exemplifiquei aí, pessoas inclusive que eu conheço e que até visitei as casas de algumas. Todavia, escrevem com a maior “santidade” e “bondade” do mundo, manifestando um desejo de uma “paz” que intimamente elas não querem.

 

O meu estilo de vida

 

         Alguns amigos acham que é frescura minha, mas há mais 20 anos em minha casa não assistimos filmes e programas violentos na televisão. Não dou mesmo audiência a esse tipo de filme, jamais pagarei locadora nenhuma pelo aluguel de uma fita ou DVD para assistir a porcarias desse tipo. Jamais deixarei de assistir filmes de comédias, musicais, belas histórias e até mesmo desenhos, para assistir assassinatos. Me desculpem aqueles que adoram esse tipo de coisa, mas se Deus nos deu algum QI (quoeficiente de inteligência), acredito que devamos usar.

         O meu filhinho, desde que nasceu, além de não gostar de filmes violentos, não vê nem desenho animado violento. Ele muda de canal imediatamente. Não impomos isto a ele não, apenas procuramos conscientizá-lo disto desde os primeiros anos, o que se tornou normal na vida dele.

         Não uso armas, jamais comprarei uma arma para mim, já escrevi várias vezes protestando veementemente contra governos de países, principalmente os Estados Unidos, pela disponibilidade de bilhões de dólares investidos em armamentos, que não levam a coisa alguma, quando todo esse montante investido, folgadamente, acabaria com a fome e as doenças do mundo, se os homens fossem mais sensatos.

         Não suporto armas!

         Todavia, eu não posso exigir que a decisão do governo do meu País, acerca deste sério problema, seja tomada conforme as minhas conveniências pessoais, a minha filosofia pessoal de vida, as minhas manifestações filosóficas e até, que me desculpem alguns, as manias que eu possa ter de querer apresentar-me para os outros, através dos meus escritos e das minhas palestras, como um “bonzinho”, “evoluidinho” e “espiritualizadozinho”, querendo dar a entender a todos que tenho um nível de paz, um nível de espírito e de vivência semelhante ao Mahatma Gandhi.  

 

A minha posição

 

         Se o governo federal conseguir proibir que as armas cheguem também às mãos dos marginais, dos seqüestradores, traficantes, assaltantes, ladrões e corruptos, não tem a menor dúvida de que eu sou indiscutivelmente a favor do desarmamento geral.

         Todavia perguntemos: Será que ele vai conseguir...

1)     ... evitar o comércio de armas no Paraguai? Basta atravessar a ponte, em Foz do Iguaçu, que qualquer pessoa compra a arma que quiser, até mesmo arma de guerra.

2)     ... evitar as entradas de armas através do porto de Santos e dos demais portos do País?

3)     ... evitar as entradas de armas através dos aeroportos, naquele sistema de “basta pagar 30 dólares por quilo”, que qualquer produto entra no País?

4)     ... aplicar alguma vacina milagrosa nos policiais, do tipo que vendem armamentos militares aos bandidos, para que esses se moralizem e criem vergonha na cara da noite para o dia e nunca mais fatos como estes ocorram no País?

5)     ... montar uma mega operação para que apareçam vários Super-homens, Batmans, He Man, Rambos, James Bond e outros super-heróis para penetrarem com total eficiência nos morros do Rio de Janeiro e nos covis dos traficantes de todo Brasil, retirando deles o gigantesco arsenal de guerra que existe em seu poder?

6)     ... será que o governo conseguirá algum milagre e equipará as nossas polícias com mais homens, tecnologia, armamento sofisticado, viaturas e rádios suficientes a ponto de se fazerem presentes nos momentos de dificuldades desta população totalmente desarmada que ele impôs?

                   

Eu não tenho a menor dúvida e voto imediatamente sim, à proibição de armas no País.

Aliás, eu não tenho nem que me envolver com isto, porque há mais de vinte anos eu já exerci essa proibição a mim mesmo, já que vivo de uma forma que define que a Lei de Deus está escrita na nossa própria consciência. Não preciso de governo nenhum para me proibir de nada, não admito que ninguém me imponha nada, quanto mais me proibir. Sou rigorozíssimo em relação a isto.

Gente! O momento não é de filosofar, é de raciocinar.

Você já viu seqüestrador, traficante, assaltante, ladrão e bandido de um modo geral ter coração? Na sua cabeça, bandido tem sentimento, bom senso, piedade, amor, compreensão, discernimento ou qualquer requisito nobre?

         Vivemos um dia-a-dia com registros de inúmeros casos de elementos, absolutamente perversos, que atiram mesmo, pra matar, sem se importar se a sua vítima é pessoa de bem, pai de família, honesta, caridosa, homem, mulher, criança, religioso... apenas porque, ao assaltá-la, não encontrou em seu bolso, na carteira ou na bolsa o dinheiro que esperava encontrar.

         O bandido, quando quer dinheiro para comprar drogas, armas e o que for do seu desejo, faz qualquer negócio e também dá o seu jeito, custe o que custar. Ele é capaz de matar até por 10 reais... ou, pior, até pelo simples fato de não ir com a cara de uma pessoa.

         Raciocinemos em cima do que muita gente vem argumentando, nesta campanha que aí está:

         Você acha que esses bandidos sanguinários, frios e insensíveis, que saberão e terão certeza de que toda a população está desarmada, sem correrem o menor risco em arrombarem um portão de uma residência, porque têm certeza de que ninguém poderá lhes dar um tiro, não agirão agora com muito mais intensidade, porque saberão que podem entrar nas casas à vontade?

Eles agora vão poder arrombar sua casa, entrar, amarrar e, enquanto um mantem sob a mira do revólver o homem da casa, o outro estupra a menina jovem, para depois levar tudo o que querem, sem serem incomodados por ninguém?

         Existem outras considerações a fazer.

         Estão alegando que somente as armas de fogo são responsáveis pelos assassinatos no lar.

         Será que somente as armas de fogo matam no lar?

         E as mortes por facas e envenenamentos que ocorrem? Existe muito mais envenenamentos, no seio da família, principalmente quando o homem da casa tem um bom seguro a deixar para esposa e filhos, do que você pode imaginar.

E os incontáveis infartos que vitimam muita gente, por causa das pressões, agressões e chantagens da própria família, que não tem nada a ver com vida sedentária, colesterol e outras “causas”, constituindo-se mesmo como assassinato, embora médico nenhum diagnostique a “causa mortis” do atestado de óbito desta forma?

É bom lembrarmos que cocaína também é proibida no Brasil, mas não há um viciado, sequer, em lugar nenhum do País, que fica sem ela. Sempre encontra alguém para vender.

 

Outros tipos de violência

 

         Teríamos, também, que proibir a fabricação de automóveis no País, sob a alegação de que o trânsito mata mais de 50.000 pessoas por ano no Brasil? Há quem diga que esse número de mortes é maior que o provocado por armas de fogo.

         Será que mesmo o número de mortos da violência pelo trânsito, somado ao número de mortes provocadas por armas de fogo, é maior que o número de mortes de brasileiros por falta de hospitais ou instrumentos hospitalares, porque o dinheiro público que seria destinado a construção desses hospitais, aquisição de ambulâncias, eletrocardiógrafos, eletroencefalógrafos, equipamentos de raios X e outros instrumentos de emergência foram desviados por políticos safados e descarados?

         Será que estes números de mortes no Brasil são maiores que o número de pessoas mortas por absoluta falta de educação, já que o dinheiro destinado à construção de escolas, aquisição de carteiras, giz e merenda escolar foram também desviados por esses mesmos políticos canalhas e descarados?

         Que tal o Governo promover, também, um referendo para saber se a população concorda com a existência de tanto deputado federal, tanto deputado estadual e tanto vereador neste país, sugando grande parte do erário, todos os meses, em valores tão elevados que, aplicados nas necessidades básicas reduziria o número de mortes dezenas de vezes mais do que o que se pretende com a proibição da fabricação de armas de fogo.

         Questionemos o bom senso das pessoas inteligentes:

         O que é que mais de quinhentos deputados federais fazem, que apenas cem não poderiam fazer?

         O que é que cinqüenta deputados estaduais, de um determinado estado, fazem, que apenas dez não poderiam fazer?

         O que é que trinta vereadores fazem, que apenas oito não poderiam fazer?

         Tentar fazer parte do povo brasileiro de bobo e idiota é algo natural, porque de fato grande parte da nossa população é constituída mesmo por acéfalos, ignorantes e bobos; mas tentar subestimar a inteligência de todos os brasileiros é algo que não pode ser aceito.

         Eu gostaria de sugerir ao governo que faça um referendo perguntando ao povo brasileiro se ele quer que os governantes e todos os órgãos públicos prestem contas diariamente, pela internet, à Nação, mostrando centavo a centavo, todo o dinheiro que entra e todo o dinheiro que sai, informação essa que possa ser acessada por qualquer cidadão.

         Garanto que fazer isto é uma das coisas mais fáceis do mundo, os custos de implantação de sistemas de informática que possibilitem isto são incomparavelmente menores que o custo que o governo está tendo para realizar o referendo do desarmamento, é rápido e pode ser colocado em prática, com tudo funcionando, em menos de seis meses.

         Para onde está indo o bilionário dinheiro da CPMF, que o ex-Ministro Adib Jatene (um dos homens mais dignos deste País), sugeriu criar para melhora da saúde no país, mas que as manobras políticas desviaram para outros destinos, sem qualquer melhora na saúde e sem que a população tenha a menor idéia de onde é aplicado? 

         Deveria haver um esforço para retirar do país as armas do cinismo, do mau caratismo, da pouca vergonha, da safadeza político partidária, do falso moralismo de muitos políticos diante das câmeras de televisão e dessa “pizza” sem vergonha e descarada que estamos presenciando aí, nessas CPIs que só conseguiram ser eficientes para caçarem apenas um homem, exatamente aquele que denunciou toda a sem vergonhice e a pouca vergonha política da Nação. E o outros, cadê? Como é que vai ficar? Vão enrolar até quando?

 

Conclusão

 

         O ideal é, sem dúvida alguma, um mundo sem armas, porque indiscutivelmente armas só promovem desgraças. Todos os movimentos contra as armas no mundo devem ser feitos, todas as inteligências devem ser aplicadas em relação a isto.

         No Brasil não pode ser diferente. Todo movimento contra as armas é saudável, é coerente e é inteligente, mas desde que seja um processamento de desarmamento GERAL.

         Mas quando a proposta é de desarmar apenas uma parte da população, ou seja, a parte que não é violenta, que não é assassina, que não dispõe de arma com objetivos de matar ninguém e sim de estar em condições pelo menos de se defender, deixando armados o universo violento, delinqüente a perverso, aí a coisa toma uma dimensão preocupante.

         Repito que eu não faço parte do universo que usa arma, não pretendo usar arma, não suporto arma e sentir-me-ia bastante fraco, do ponto de vista espiritual, e até certo ponto covarde, usando uma arma. Mas, daí a querer colocar a minha filosofia pessoal como regra geral, foge-me o bom senso, foge-me a coerência e foge-me a capacidade de observar uma realidade cristalina, talvez tentando enganar a mim mesmo.

         Se a proposta for desarmamento total, o meu voto vai ser SIM, mas se for desarmamento de apenas uma parte da população, como está previsto, o voto é NÃO.

         Que me desculpem os amigos da mesma filosofia religiosa, principalmente aqueles que estão, mesmo aqui na Terra, vivendo no paraíso, no mar de rosas, na expressão da bondade absoluta, mas eu não tenho jeito para apresentar ao público, através dos meus escritos e das minhas palestras, um nível espiritual além do que realmente eu tenho.

 

         Sinceramente.

 

 

         Alamar Régis Carvalho

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