Visão profunda

Todos devemos nos esforçar para ter

Alamar Régis Carvalho

alamar@redevisao.net

 

            Todas as coisas boas que acontecem conosco têm origem em atos de nossa responsabilidade. As coisas ruins, também, têm origem em atos de nossa responsabilidade.

            Muita gente se fere e até morre por causa da sua ignorância, falta de atenção, preguiça de pensar, do seu descaso e da indisponibilidade em procurar aprender.

            Eu preciso eliminar de mim o máximo de ignorância possível, o máximo de preguiça e de falta de atenção. Preciso, em caráter de urgência, interessar-me em enriquecer os meus conhecimentos.

            Se prestarmos bem atenção a um quadro que foi criado no programa Fantástico, da Rede Globo (esta mesma rede de televisão que algumas pessoas odeiam e não conseguem ver nela nada que preste), o quadro do “doutor bactéria”, que é uma das mais eficientes propostas de educação deste País, bem como as participações do doutor Drauzio Varela, no mesmo programa, vamos perceber quantas pessoas, certamente, devem ter morrido por não observarem quanta falta de higiene praticamos em nossos lares, com a nossa própria alimentação, com aquelas taboas de madeira de cortar carne, com aquelas colheres de pau, esponjas de lavar louças, comidas deixadas fora da geladeira por muito tempo e uma série de outras burradas que a gente faz no dia-a-dia sem nos percebermos.

            Mas há outro aspecto também que eu preciso exercitar em minha vida, para evitar sofrimentos meus e dos meus semelhantes, que é a prática da visão profunda.

            Visão profunda? Que diabo é isso, Alamar?

            Nós temos o hábito de analisar as coisas e as pessoas com visão superficial. Por preguiça, descaso, orgulho ou pressa e até falta de responsabilidade, nós somos campeões nisso.

            Preciso deixar bem claro, antes de prosseguir, o que eu quero que você entenda sobre essa questão de visão superficial e visão profunda.

            Por exemplo: as pessoas, em maioria, quando terminam o segundo grau e desejam entrar na Universidade para o curso superior, procuram logo entrar em um cursinho preparatório, não é?

            Elas vão entrar nesse cursinho pra quê? Para aperfeiçoar os conhecimentos das matérias que talvez não tenham sido bem estudadas no segundo grau? Não. Elas entram no cursinho para receberem macetes de como fazer a prova do vestibular. Estou exagerando?

            Pois bem. O material escolar utilizado nos cursinhos são apostilas, que nada mais são do que resumos das matérias ensinadas. Quem estuda em apostila não vai aprender nunca a matéria em questão, vai aprender apenas resumos. Isto é aprendizado superficial.

            Durante o curso universitário muitos estudam para fazer provas e não para aprender.

            Qual será a eficiência e a qualidade de médicos, engenheiros, advogados, economistas, contadores... e outros “doutores” (gostam sempre de serem chamados de doutores) que conseguem as suas formações profissionais de forma superficial? Serão sempre pessoas de visão superficial.

            Daí a quantidade de “adevogados” que existem por aí, sem a menor competência de aprovação nos concursos da OAB, que é instituição séria e não está disposta a manter incompetentes exercendo a advocacia da extorsão, da prepotência e da “justiça” que só vê  honorários. Mais de 90% de reprovação. Muitos erros médicos em hospitais, muitos erros de cálculos na construção civil, muitos contadores embromadores, jornalistas do tipo que ninguém entende o que eles escrevem... e por aí vai.

            Devemos fazer de tudo para fugirmos da visão superficial, porque ela nos trai, nos engana, nos equivoca, nos prejudica, prejudica o nosso próximo, nos faz praticar injustiças e muitas vezes nos mata.

            Não sei se você conhece a idéia do poço artesiano, que é um buraco que a gente manda cavar no chão, em busca de água, em algumas localidades. Ao contratarmos um profissional para fazer esse serviço, ele vai nos dizer que o preço a ser cobrado vai depender da profundidade a ser cavada e nos dirá: Aqui neste local onde você mora, cavando apenas 20 metros vamos encontrar água, sim, mas se cavarmos 40 metros, mais profundo, vamos encontrar água mais pura; se chegarmos a 60 metros ela será mais pura ainda.

            A idéia da visão profunda é mais ou menos isso aí. Quanto mais você procurar aprofundar a sua visão, na análise de tudo, mais você chegará à pureza ou, no caso de análise de coisas, pessoas e fatos, chegará à verdade mais verdadeira.

            Vamos citar alguns casos, para ilustração?

            Toda vez que há um desentendimento entre duas pessoas, ao ponto de chegar a uma briga que leva um dos dois à morte, o que é que acontece?

            A pessoa de visão superficial (a grande maioria) achará sempre que o que morreu é vítima e coitadinho; o que ficou vivo é sempre o bandido e assassino, não é assim?

            Quando a pessoa de visão superficial vê uma notícia trágica em jornal, dando conta de que um homem “matou” a sua mulher, ela tira logo a conclusão de que ele é um monstro, um bandido da pior espécie, deve ser preso imediatamente e morrer na cadeia, não é assim?

            A pessoa de visão superficial ouve dizer certas coisas e sai por aí a repetir, como se fossem verdades, citações do tipo: “A Bahia é a terra da macumba”, “em Belém do Pará as pessoas marcam encontros antes da chuva e depois da chuva”, “Jung foi discípulo de Freud”. “Maria Madalena foi adúltera e prostituta”...

            Se há um escândalo na Prefeitura da cidade, acusações de desvios de dinheiro que de fato aconteceram, a pessoa de visão superficial só consegue apontar o prefeito como o bandido, o corrupto e o safado. Se é numa empresa, ela só consegue apontar o presidente, ou seja, o titular daquela empresa como sujo e bandido.

            Ela vê uma notícia na televisão, em um jornal ou uma revista e absorve logo como sendo verdade.

            A pessoa de visão superficial ouve uma fofoca, alguém falando mal de outra pessoa, e absorve aquilo como sendo verdade.

            Ela chega até a pronunciar um ditado bobo que existe por aí: “onde há fumaça, há fogo”.

            Afirma coisas do tipo: “Todos os homens são iguais”, “o ciúme é a coisa mais normal do mundo”, “quem não tem ciúme não ama”, “sogra não presta”, “todo político é safado e corrupto”, “filmes e produtos eróticos todos são necessariamente pornográficos”, “Português é burro”, “Maria Madalena foi adúltera e prostituta”...

            A pessoa de visão superficial não procura direito as coisas mas afirma que o objeto procurado não está lá.

            Ela vai na onda das propagandas de lojas que afirmam que determinado produto está sendo vendido em 12 vezes, sem juros e sem entrada, acredita nessa “bondade” e compra.

            Ela acredita que banco é amigo das pessoas, chega até a fazer aplicações de dinheiro em banco e ainda assina documento que lhe proíbe de retirar o seu próprio dinheiro antes de 12 ou 24 meses.

            A mulher, insatisfeita com o marido, afirma que o seu é o “pior marido do mundo”. Veja bem, não é nem o pior do seu bairro, é logo o pior do mundo.

            A pessoa que sofre e passa por dificuldades, vê sempre a sua cruz como a mais pesada do mundo.

            Agora, veja como age a pessoa de visão profunda.

            Quando há um desentendimento entre duas pessoas, culminando com briga e morte de uma das duas, ela nem sempre vê a que morreu como vítima e a que sobreviveu como bandida. Analisa profundamente a questão, porque tem competência para isso, e é capaz de perceber até que o que morreu foi de fato o provocador e o violento, que colheu o que vinha procurando há muito tempo. Pois é, em muitos casos existem pessoas agressivas, violentas, perversas que passam a vida inteira a humilhar, perseguir, caluniar, difamar e provocar os outros que, de repente, terminam encontrando a própria morte porque leva o seu desafeto (que é a verdadeira vítima) a tanto sofrimento e tanta pressão que termina fazendo-o chegar ao desespero a ponto de praticar algo que nunca quis fazer, que é matar.

            A pessoa de visão profunda sabe que existem nas cadeias muitos presos e condenados que nunca foram bandidos, nunca foram desonestos e nunca foram maus. Que bom seria se os delegados, policiais, advogados, promotores e juízes tivessem, todos, visões profundas.

            A pessoa de visão profunda, antes de julgar (de preferência não julgar nunca), consegue procurar saber dos detalhes da convivência do casal, naquele caso do marido que matou a mulher (e vice versa), que ela era de fato uma vagabunda, que vivia a humilhá-lo, a fazer questão de chamá-lo de corno na frente dos próprios amigos, dos conhecidos e do povo da rua, para humilhá-lo o máximo possível, provocava o marido 24 horas por dia e, quanto mais ele lutava para agüentar, ter paciência e tolerar, aí que ela não se conformava e provocava mais. Chega um ponto que não dá mais. Isto acontece muito.

            Jamais a pessoa de visão profunda sai por aí a repetir coisas, só porque todo mundo diz. Pesquisando bem ela vai tomar conhecimento de que a Bahia não é o estado onde mais se pratica macumba no Brasil, que paraense nenhum marca encontro para antes ou depois da chuva em Belém e em nenhuma outra cidade do Pará; estudando a vida de Carl Gustav Jung, procurando saber como ele conheceu Freud, como foi a relação entre os dois e como foi o rompimento, jamais dirá que ele fora seu discípulo.

            A pessoa de visão profunda, antes de julgar o escândalo da prefeitura, em vez de cômoda e levianamente acusar o prefeito e encerrar o caso, vai fundo na análise dos fatos e saberá que, na maioria das vezes, quem mais promoveu os rombos nos cofres públicos foram os seus secretários, os assessores que ele imaginava serem de confiança, os seus próprios parentes e até a sua própria esposa e filhos, o que acontece muito mais do que você pode imaginar. Existem casos de homens que sempre foram honestos, assumiram prefeituras e órgãos públicos, continuaram honestos e dignos, nunca roubaram, não ficaram ricos e ainda entraram na história como ladrões e corruptos, quando quem enriqueceram foram os seus parentes e até uma sem vergonha de uma mulher que nem sempre está mais vivendo com ele.

            O mesmo acontece com relação a uma empresa que passa por problemas financeiros terríveis e até vai a falência. A pessoa de visão profunda é capaz de perceber coisas que acontecem em grande quantidade no Brasil, como roubos praticados pelos próprios funcionários, por gerentes, chefes de depósitos, tesoureiros e também por filhos, parentes, esposas, maridos etc. Se os senhores juízes da “justiça” do trabalho e a própria legislação tivessem visão profunda, não praticariam tanta injustiça, liquidando com a vida de algumas pessoas que apareceram nas ações como titulares de algumas empresas, tomando todos os seus bens. Quanto suicídio já aconteceu, por causa disso.

            Com estes relatos não quero dizer que todos os prefeitos e empresário sejam santos, porque de fato existem muitos deles que são de fato os safados.

            A pessoa de visão profunda não absorve, de cara, tudo o que é publicado em nenhum órgão de imprensa como sendo verdade. É sempre de bom alvitre procurar ver como aquela notícia foi mostrada em outro jornal, em outra revista e em outro canal de televisão. Por ter visão profunda ela procurará saber qual foi a origem da informação, ela sabe que no meio jornalístico também tem pessoas humanas, podendo ser honestas ou não, corruptas ou não, preconceituosas ou não, éticas ou não, de bom ou mau humor, problemáticas ou não... enfim, ela não engole qualquer coisa. Ela é capaz, inclusive, de procurar saber a quem pertence aquela emissora de TV ou de rádio e aquele jornal (geralmente pertencem a políticos), ao mesmo tempo que conseguirá identificar quem são as pessoas e grupos na cidade que o dono do veículo adora e as que ele odeia.

            Não vamos muito longe, quanto a isso: Não sei se você observou, recentemente, quando o Papa João Paulo II desencarnou e o novo Papa assumiu; qual foi a cobertura que a Rede Record de Televisão deu?

            Eu não quero entrar no mérito da questão, só quero mostrar que apenas as pessoas de visão profunda vão perceber que a Rede Record pertence ao pastor Edir Macedo, que é dono de uma igreja protestante, criada conforme as suas conveniências, e que ali só é divulgado coisas que não o desagrade. O mesmo acontece em relação à Rede Vida e Rede Canção Nova, ambas católicas, que não deram qualquer notícia a respeito da caminhada dos protestantes, reunindo milhões de pessoas na região da Avenida Paulista, em São Paulo.

            Diante de uma fofoca e um processo de difamação de alguém, a pessoa de visão profunda tem um comportamento totalmente diferente da de visão superficial. Ela procura saber quem é que está espalhando a informação, de onde ela se originou, procura saber se a pessoa que está difundindo a fofoca tem certeza sobre o que está falando, se ela tem provas sobre o que acusa e se assina o que diz e qual a fonte. A pessoa de visão profunda, mesmo sem ser hábil em Psicologia, perceberá logo que apenas as verdadeiramente bandidas, calhordas e de mau caráter são capazes de promoverem fofocas e processos de difamação contra quem quer que seja. Elas jamais darão prosseguimento à difusão da fofoca, quanto mais dar credibilidade às informações.

            Ela nunca afirmará o ditado “onde há fumaça, há fogo” porque sabe que existe gelo seco, que parece fumaça, mas não é, por isto não tem fogo nenhum. Em tempos muito frios, há alguma coisa que sai da boca das pessoas quando falam ou expelem ar para fora, parecido com fumaça, mas não é fumaça. A pessoa de visão profunda sabe que há diferença em o que “parece que é” e o que “é de verdade”.

            Nunca ela vai dizer que todo homem é igual, porque ela não é burra e sabe que existem diferenças gritantes entre a personalidade, o caráter, a dignidade, a honestidade, o amor, a humildade, a ternura e todas as características de cada homem. Nunca vai dizer que ciúme é normal, porque existe muita gente que não sofre dessa terrível enfermidade. Não vai dizer que para você amar uma pessoa necessariamente tem que ter ciúme dela, porque aí seria nivelar por baixo. Nunca afirmará que toda sogra não presta, porque é capaz de perceber que há sogras maravilhosas. Nunca afirmará que todo político é safado porque existem políticos da mais alta dignidade, independentemente de partido. Nunca afirmará que todo filme e produto erótico é pornográfico, porque tem consciência de que o sexo é amoral e nada tem de imoral, apesar de saber que muitas imoralidades, de fato, são feitas utilizando o erotismo. Nunca afirmará que todos os portugueses são burros, porque em Portugal existem coisas que são expressão das mais elevadas inteligências e a maioria das coisas funcionam muito melhor que em nosso Brasil. Antes de fazer qualquer afirmativa sobre Maria Madalena, sem se deixar levar pelo que “todo mundo diz”, vai ela mesma fazer a sua pesquisa nos livros do novo testamento e comprovará que não há um versículo, sequer, que afirme que a adúltera ou a prostituta que, de fato, existiu no Evangelho, era ela.

            A pessoa de visão profunda não apenas abre a porta do armário ou a gaveta, dá uma olhadinha de leve, não vê a coisa procurada e sai a dizer que ela não está lá com certeza. Ela abre todas as portas e gavetas, pega todas as coisas, olha atrás, por baixo e por dentro, procura, presta bem atenção em cada ponto, confere bem, para depois afirmar que o objeto procurado foi encontrada ou que de fato não está lá.

            Ela não vai na onda das propagandas das lojas e não se deixa levar apenas por um valor de prestação que pode pagar; ela faz os cálculos dos juros que lhe estão cobrando e decide se é vantagem ou não. Geralmente não é vantagem nenhuma.

            Ela não é tão desinformada para sair por aí afirmando que o seu é o pior marido do mundo, apesar dele ser mesmo um sem vergonha de marca maior, como muitos que eu conheço. Quando ela começa a procurar saber bem como certos outros maridos agem com as esposas, muitas vezes verdadeiros torturadores, vai perceber que o dela, apesar de não ser lá essas coisas, é até um anjinho em se comparando com alguns monstros que existem por aí. 

            Não vê o seu sofrimento como uma tragédia, que Deus não se lembra dela, que ela é a pessoa mais infeliz do mundo, que a sua cruz tem peso de toneladas... nada disto. A pessoa de visão profunda sofre também, chora, se revolta, fica p. da vida, fica indignada porque é uma pessoa humana; todavia, não se considera abandonada porque, por ter Visão Profunda, sabe que Deus, mais cedo ou mais tarde, dará a cada criatura a colheita de tudo o que plantou.

            Não sua Visão Profunda, terá condições de perceber que o Deus que criou os homens é incomparavelmente maior e nada tem a ver com o deus que os homens criaram.

            Quais as conseqüências disso????????

            É por causa das pessoas de visão superficial que os malandros existem. É por causa delas que existem os traficantes, os falsificadores, os políticos corruptos, os bancos, os fofoqueiros, os espertalhões, os “empréstimos” para aposentados e pensionistas, as propagandas que dizem que a caninha 51 é uma boa idéia, os cartões de crédito que cobram juros elevadíssimos, a cocaína e outros tóxicos, os demagogos e os hipócritas, as religiões mercantilistas da fé, a fé cega, as doutrinas do “porque sim” e “porque não”.

            É por causa dela que existe muita gente que acredita que o PC Farias foi morto pela Suzana, que o Juscelino Kubistcheck morreu por um casual acidente rodoviário, que Jesus morreu para nos salvar, que virgindade de mulher é sinônimo de honra, que alguém fuma por esporte e toma bebida alcoólica socialmente, que promessa de político vai ser cumprida, que a energia elétrica, o telefone e o pedágio tem mesmo o custo que nos é cobrado em conta, que as traduções da Bíblia para o português são fiéis ao original hebraico, que a água potável pode ser desperdiçada porque não acaba nunca...

            Algumas pessoas exigem dos que escrevem, que escrevam pouco e de forma resumida porque se o texto for grande fica cansativo e elas não querem ler. Tudo tem que ser superficialidade, nada de se aprofundar nas explicações e nos esclarecimentos para as coisas ficarem muito bem entendidas. Não parece com a história da apostila? Eu prefiro aprender nos livros. 

            A nossa libertação da visão superficial é tão importante quanto a nossa necessidade de sair do analfabetismo para aprender a ler e a cursar os graus de estudos escolares normais.

 

            Carinhosamente.

 

 

            Alamar Régis Carvalho - alamar@redevisao.net .

                

 
 

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