NA AERONÁUTICA. A EXPERIÊNCIA MILITAR

      Residindo na cidade de Guaratinguetá, em casa do seu tio Tenente Viriato, na vila dos oficiais da Escola de Especialistas de Aeronáutica, encantou-se com a farda azul da Força Aérea Brasileira e disse para o tio que estava disposto a vestir aquela farda. O tio duvidou e o disse que aquilo era para jovens estudiosos e responsáveis e não para um irresponsável. como ele, que não queria nada com os estudos.
      Mas ele insistiu para o rigoroso tenente: "
Eu quero vestir esta farda DE QUALQUER MANEIRA"

      O tio continuou a duvidar mas, por via das dúvidas, resolveu colocá-lo num cursinho preparatório em Guaratinguetá, retirando-lhe do Instituto de Educação Conselheiro Rodrigues Alves, onde ele estudava.
      Este cursinho, diz Alamar:
" foi a minha estrada de Damasco, na área do interesse pelos estudos. Lá encontrei aquele que considero o melhor professor do mundo. O suboficial Célio que me fez ter simpatia e, por consequência, entender a Matemática e a Física, fazendo-me tomar gosto pelas matérias. Através daquele professor descobri que não há alunos burros, o que existe são professores incompetentes. A sua dedicação foi tão grande que conseguiu passar no primeiro concurso que fez à Escola de Especialistas da Aeronáutica, concorrendo com 23.000 (vinte e três mil) jovens em todo o país, disputando apenas 512 vagas. Ele foi classificado com o número 339. Diz que se tivesse obtido o mesmo interesse pela Gramática, como teve pela Matemática e pela Física, certamente teria sido um dos primeiros do concurso, haja vista a quantidade de "gás" que tinha naquele momento.   

  Na Escola de Aeronáutica

    Na Escola de Especialistas de Aeronáutica, Alamar tocou no conjunto musical denominado pelos colegas de "Os paralelos do ritmo" (os que nunca se encontravam). O Ferraz era o guitarrista, o Hugo o baixista, o Ferreira no órgão, o Cunha baterista e ele no piston. Esse conjunto foi também um sucessozinho porque a turma gostava muito.

Na Escola de Aeronáutica, recebeu muita pressão também para fumar e tomar bebidas alcoólicas. "Todos os sargentos que lideravam os mais de dois mil jovens, adolescentes daquela escola, só viviam fedendo a cachaça. Eram alcoólatras explícitos e faziam daquela condição um mérito. Vários deles tiravam serviços totalmente bêbados. O Tenente Fabiano, da Especialidade de Infantaria de Guarda, tirava serviço de Oficial de Dia totalmente embriago, principalmente à noite", diz ele.
   

Foi designado na especialidade de Comunicações, na área de Rádio Telegrafista.
Todos os finais de semanas os alunos eram liberados, na sexta-feira, para retornarem aos domingos, à noite, a fim de reiniciar as tarefas na segunda-feira. De vez em quando ele ia também para o Rio de Janeiro.
    Aí surgiu a EMBRATEL. A copa do mundo de 70 seria transmitida via satélite, direto para o Brasil!

    "Satélite! que diabo é isso?"

     Já que se tratava de comunicações, ele resolveu ir para o Rio de Janeiro e não voltar no domingo à noite, como era de praxe e obrigação. Decidiu ficar por lá e na segunda-feira, pela manhã, foi à EMBRATEL na Avenida Presidente Vargas, vestido com sua linda farda, manifestar interesse em conhecê-la. Sobre essa visita, Alamar diz: 

    "Vejam só que bagagem: Fui recebido pelo Presidente que determinou que me ensinassem tudo o que fosse possível. Tive o prazer de conhecer o Dr. Helvécio Gilson, um dos grandes nomes da EMBRATEL no Brasil, que mais tarde se tornou seu Presidente. Fiquei no Rio na segunda, na terça e na quarta-feira, retornando à noite dessa quarta. Chegando à Escola, já esperava cadeia na certa, porque nenhum aluno praticante de tamanha "irresponsabilidade" escaparia duma dessas.
    Para a surpresa de todos cheguei à sala de aula, da minha especialidade, na quinta-feira pela manhã, cheio de manuais, livros e bagulhos em baixo do braço, sabendo tudo sobre a EMBRATEL. Trazia nas mãos também um brinde, daquela empresa, para os sargentos que cumpunham o quadro de professores daquela especialidade de comunicação. O sargenteante da minha companhia já estava com tudo documentado para me prender, mas eu nem fui com ele. Fui logo para esta sala de aula.".

    Disse o que estava fazendo no Rio de Janeiro, manifestou o desejo de dar uma aula sobre EMBRATEL (ele tinha 18 anos, apenas) e lhe foi concedido esse direito, porque o assunto era muito novo no Brasil e todo mundo queria saber como funcionava aquele negócio de satélite. Os sargentos e os tenentes da sua especialidade, por exemplo, não tinham a menor idéia daquilo. Aí ele deu uma senhora aula e até diz  "modéstia a parte, arrasei".

    A turma gostou demais e o sargento Souza, o chefe da equipe, mandou um documento para o comandante da sua companhia informando que a sua estadia no Rio de Janeiro fora útil para a Escola, para todos os colegas inclusive para os sargentos e oficiais. A falta foi justificada e ele se livrou da cana.
    Formou-se sargento, com apenas 19 anos, na especialidade de Rádio Telegrafista, na área de Comunicações.
   
    
Foi designado a servir na cidade de Belém do Pará, para onde foi morar a maior parte da sua vida.

Como sargento da Aeronáutica

    Observando o avanço das telecomunicações, achou que a telegrafia não tinha mais futuro e que ela se constituía como um meio deficiente de comunicação que chegava até a prejudicar a saúde dos seus usuários. Como sargento, já com apenas 20 anos de idade, tomou a iniciativa audaciosa de dizer aos seus superiores que não praticaria mais aquela especialidade, por ser uma tecnologia obsoleta. E assim fez, independente de saber se eles concordariam ou não.

    Ficou preso várias vezes no Quartel do 1º Comando Aéreo Regional, pela audácia, mas não abriu mão da sua decisão.

    Saiu da escala de comunicações e foi exercer trabalhos burocráticos. " Coisa horrorosa, mas tive que fazer".

    Ele ficava indignado com a falta de personalidade dos colegas e com a subserviência deles a alguns oficiais, que postavam-se como verdadeiros deuses. Alamar queria fazer tudo ao contrário: "Qualquer ordem que eu recebesse e julgasse absurda, me recusava a obedecer, qualquer que fosse a ameaça. Eu costumava dizer: Não sou otário para receber ordens de imbecis. E na verdade existiam vários oficiais imbecis, mesmo, no quartel.

     Não estou generalizando, claro, estou apenas citando um fato verdadeiro. Existia uma escola de formação de oficiais "nas cochas" na FAB, que ficava em Curitiba, no Parná, chamada EOEIG (Escola de Oficiais Especialista e de Infantaria de Guarda) que era uma fábrica de idiotas.
     Poucas eram as excessões. A maioria era mesmo constituída por elementos sem o menor preparo psicológico para ser oficial da Força Aérea Brasileira".
   

     O prazer daqueles oficiais era punir os seus subordinados. O Brigadeiro Eduardo Gomes, um dos nomes mais ilustres da Aeronáutica, não suportava aquela escola e dizia o seguinte: "A EOEIG era uma forma da FAB perder um bom sargento para ganhar um péssimo oficial".

    Alamar foi perseguido demais por aquela raça. Mas era protegido também por dois homens que ele qualifica como  extraordinários, também saídos daquela escola: O Tenente Mozart José e o Tenente Jocelyn Abinader Araújo, daquelas raras excessões.

    Certa noite ele tirava serviço de sargento de dia no Aeroporto Internacional de Belém, na divisão de proteção ao vôo. Mas observou que o colchão destinado para o sargento dormir, no alojamento dos sargentos, estava num estado lamentável de conservação, fazia até vergonha: sujo, fedorento, com as molas expostas e sem conforto algum. Para você ter uma idéia, o tal colchão era ainda da época da segunda guerra mundial, quando os americanos instalaram uma base em Belém. "Fedia demais".

    Os pobre coitados dos outros colegas, quando tiravam serviços assinalavam no livro de ocorrências textos mais ou menos assim:

    - "O colchão do alojamento dos sargentos não encontra-se em bom estado de conservação".

    Era só isso que eles escreviam, nada mais. Todos eles copiavam esta mesma oração, durante anos e anos. E ninguém tomava providência nenhuma. Alamar ficava danado com o mesmismo dos colegas, não admitia a falta de criatividade e iniciativa deles em fazer algo diferente. " Era um bando de medrosos e omissos, com todo o respeito que aqueles ex-colegas me merecem".

    Quando chegou a sua vez ele escreveu o seguinte no livro de ocorrências:

- "O colchão destinado ao repouso dos sargentos faz vergonha. Não é digno de pertencer à gloriosa Força Aérea Brasileira. Para que os senhores tenham uma idéia do estado em que se encontre, senhores oficiais, eu fiz o teste do cachorro. Peguei um cachorro, dos muitos que existem nas proximidades do Aeroporto Internacional de Val-de-Cães, com muito carinho o coloquei para dormir um pouco sobre o colchão dos sargentos. E o cachorro, muito irritado da vida, ameaçou-me morder, caso eu tentasse novamente agredi-lo daquela forma. Senhores oficiais: O colchão destinado ao sargento de dia do DPV-1 não serve nem prá cachorro.".

    Pegou uma senhora esculhambação, foi punido com 4 dias de detenção pelos termos utilizados no livro de ocorrências do Serviço de Proteção ao Vôo, mas, em compensação, o problema foi solucionado. Trocaram o colchão fedorento por um novo.

    Logo que chegou à Belém, entusiasmado com o cursinho preparatório que havia feito em Guaratinguetá, que o fez apaixonar-se pela Matemática e pela Física, resolveu montar um cursinho preparatório para a mesma escola na cidade. Ele pretendia dar aulas iguais aos que o Suboficial Célio lhe dera. Ele queria provar a tese que havia comprovado: "não existem alunos burros e sim professores incompetentes".

    Vale registrar que antes do seu cursinho, os índices de aprovações para a Escola de Especialistas em Belém eram os menores possíveis. Uma média de 2 a 3 candidatos apenas por concurso. Só existia um cursinho, muito inexpressivo, na cidade, propriedade de um outro sargento chamado Lobato. Depois que montou o seu curso, com o nome de Curso Aviação Militar, o índice aumentou para uma média de 15 candidatos por concurso, o que representou um marco.

    Em 1976, conseguiu um feito histórico: Aprovou todos os alunos do seu curso. Isto mesmo, TODOS OS ALUNOS! Foi um feito inédito em todo o país, entre eles, um primeiro colocado em todo o Brasil. Sabem qual foi o prêmio que Alamar recebeu por isso? Foi preso incomunicável no QG-1, sob suspeita de que havia conseguido cópias das provas antecipadamente, o que seria absolutamente impossível, haja vista que as mesmas eram elaboradas na Escola Militar de Guaratinguetá, há mais de 4 mil quilômetros dali, sob o mais absoluto controle e sigilo militar. Naquele tempo não havia fax, muito menos Email de internet, a telefonia era dificílima, o correio era péssimo e não haveria a menor possibilidade de comunicação com alguém da Escola de Especialistas, da sua parte. A verdade é que a sua dedicação, iniciativa e criatividade o fazia muito perseguido no quartel. Ele era o único sargento na época a ter carro zero quilômetro, já que o seu cursinho fazia muito sucesso e ele tinha muito prestígio na imprensa local, o que lhe fazia ter muitos alunos.

    Na Aeronáutica, ainda trabalhando na burocracia do Serviço de Proteção ao Vôo da Amazônia, Alamar criou um modelo de controle de inoperâncias de equipamentos eletrônicos dos sistemas de rádio de controle aéreo, chamado "Rádio 359", que foi utilizado pela FAB por mais de 15 anos, mesmo depois que ele deixou a Aeronáutica.

     Procurava sempre estar em contato com os órgãos de imprensa: rádio, jornal e televisão, negociando propagandas do seu cursinho, quando despertou a atenção da senhora Conceição Lobato de Castro, Diretora Presidente e proprietária da TV Guajará, canal 4, então afiliada da Rede Globo em Belém, que dizia gostar das suas idéias, das sugestões que ele apresentava. A Dona Conceição o convidou para trabalhar com ela, no departamento de programação, o que para ele representou um susto. Ele teve que recusar, por duas razões: Primeiro porque não se achava preparado para tal, segundo  por causa do compromisso com a Aeronáutica.     

     Mas a convivência com a Aeronáutica não era boa, porque, conforme foi dito, ele não admitia ser mandado por alguns oficiais os quais julgava incompetentes e até imbecis, apesar de serem seus superiores hierárquicos. Alamar não levava desaforo para casa e recebia cadeia em cima de cadeia.    

     Quanto mais ele era perseguido, mais ele provocava. Conseguiu ter vários amigos Coronéis, sobretudo os aviadores, embora fosse destestado pela maioria dos Tenentes, formados pela tal EOEIG. Os tenentes aviadores não se envolviam com ele não. Alguns aviadores o chamavam de "sargento engrenado". Entre os seus amigos de bate-papos, registraram-se os Coronéis Boris Ditchef e Eti Coelho Brito. Alamar conversava com eles com uma intimidade enorme. Andava nos corredores do Quartel do Primeiro Comar, com as mãos nos ombros dos coroneis, o que é um absurdo no meio militar. Sargento não pode ter certas intimidades com oficiais, principalmente superiores.

    Certa tarde, embora ele não fosse aviador, porque sargento não pode ser aviador (especialidade só para oficiais) audaciosamente e até presunçosamente garantiu para os dois coronéis que ele conseguiria pousar com um avião paulistinha (paulistinha era um modelo de avião, teco-teco) com os três trens de pouso no chão ao mesmo tempo (trem e pouso é o nome que se dá à roda do avião). Os coronéis, seus amigos, duvidaram, pela dificuldade de cálculo que uma operação dessa requer, principalmente em um avião tão leve. Alamar não pensou duas vezes. Mais uma irresponsabilidade estava na iminência de ser praticada: Foi ao Aero Clube Júlio Cesar, pagou uma hora de vôo, decolou com o avião, deu um rasante em frente ao QG (ato de absoluta irresponsabilidade) para chamar atenção, e terminou conseguindo pousar com os três trens de pouso na pista ao mesmo tempo. Diz "foi a maior cagada da minha vida". Quando desceu do avião, foi colocado direto no camburão da PA (Polícia da Aeronáutica) e preso incomunicável. Ele ficou danado da vida, porque, só fizeram lhe prender, mas não disseram prá ninguém o motivo pelo qual ele havia sido preso. "Eu queria tanto que dissessem que eu havia decolado com um avião, que dei razante em frente ao QG e que consegui pousar com os três trens de pouso no chão, o que representava um ato de competência, mas os idiotas omitiram, porque foi uma competência. Talvez se eu tivesse cometido um crime qualquer, um roubo, um assalto, uma agressão a alguém, um estupro ou coisa parecida, tivessem divulgado a razão da punição.

   Alamar quase chegou à loucura, devido ao volume de perseguições e torturas mentais, quando foi aconselhado por alguns Coronéis e Oficiais Médicos, amigos dele, entre eles o Coronel Médico Pedro de Brito Tupinambá, então diretor do Hospital da Aeronáutica, a deixar a FAB, a fim de seguir a sua vida fora, onde teria maiores oportunidades de desenvolver a sua criatividade.

    Ele recusou, porque adorava a farda da FAB e queria provar para todos as suas intenções e que ele não estava errado. De fato, ele amava demais a Força Aérea Brasileira e pretendia ficar ali mesmo. Aquela farda para ele era o máximo, pela sua beleza.
    Foi preciso os médicos endurecerem a barra com ele:

    Quando percebeu que a tecnologia da rádio telegrafia não tinha futuro, Alamar determinou que não praticaria mais aquilo. Enfrentou o rigor da Aeronáutica, foi preso várias vezes, mas não abriu mão da sua decisão, a qual considerava sensata. E não deu outra coisa, hoje ninguém mais pratica a telegrafia.

     - "Porra! Você vai acabar sendo morto aqui! Deixe de ser burro! Onde é que está a sua inteligência? Você não está percebendo isto? Esses caras vão lhe apagar, merdaaaa..."

    Foi internado no Hospital da Aeronáutica para exames psiquiátricos (alguns o consideravam maluco. Há quem considere até hoje) e recebeu o diagnóstico de incapacidade para continuar no serviço militar. Ele deveria ser reformado na Aeronáutica e ter um salário hoje, mas boicotaram o seu processo e foi prejudicado, nunca tendo recebido nenhum provento. Mas não se incomodou com isso porque acreditava em si. Sempre acreditou em si.

    Na FAB foi considerado o operador de telex mais ágil do País, por alguns colegas. Se era verdade ou não ele diz que não sabe, só sabe que sua agilidade no teclado impressionava a todos. Até hoje Alamar tem mesmo muita agilidade num teclado de computador e máquina de escrever.

    Ele estava trabalhando, novamente na estação Rádio do Aeroporto Internacional de Belém, não com rádio telegrafia, porque ele havia determinado a si mesmo que não trabalhava com aquela porcaria, e sim com telex, quando soube que um grupo ameaçava mandá-lo para Xambioá, um destacamento da FAB perto de Conceição do Araguaia, onde havia uma guerrilha terrível, no tempo da chamada repressão. Havia muita morte por lá. De vez em quando ele via, pela janela da estação rádio do aeroporto, onde trabalhava, descer um caixão de defunto com um militar dentro, vítima da guerrilha do Araguaia.

    De repente, ele mesmo, recebe, pelo telex, a mensagem/rádio do hospital falando que a partir daquela data estaria fora da FAB. "Graças à Deus!!!" disse ele.

    Naquele mesmo dia, Alamar assumiu o cargo de Diretor de Programação da TV Guajará, então afiliada da Rede Globo de Televisão, ganhando bem mais, o que irritou ainda mais o incompetente Coronel José Bernardo Santarém, o homem que mais nutria ódio por ele na Força Aérea Brasileira, tentando persegui-lo até mesmo na vida civil.

    Sobre o desempenho do Alamar, como homem de televisão, leia o tópico que fala sobre isso.


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